|
Ano 9, número 327 EDITOR: WALTER RODRIGUES S. Luís (MA),
09/10/05
Mortos sem sepultura
Crime de Buriti Bravo pode repetir Barra do Corda e Bacabal
Três casos de homicídio premeditado, no interior do
Maranhão, os três com suspeita de influência política no embaraço das
investigações, desafiam a dignidade da Justiça e a consciência moral
coletiva. O mais antigo ocorreu em Barra do Corda. O mais recente, em Buriti
Bravo, onde mataram o prefeito da cidade. Entre esses dois casos, dois
homens foram friamente executados numa estrada de terra em Bacabal. Só o de
Buriti ainda desperta o interesse da mídia.
A Polícia identificou os autores materiais nos três
episódios. Sabe também os nomes de outros envolvidos, seja por haverem
ordenado os crimes, seja por colaborarem de alguma maneira com a execução,
ou com a proteção aos bandidos. Num caso, o de Bacabal, as investigações
ficaram pelo meio, porque até a Polícia não quis avançar. Neste, e no crime
de Barra do Corda, a Justiça baleou o desenvolvimento do inquérito mandando
soltar os malfeitores. Os únicos que ainda continuam presos são os supostos
executores da liquidação do prefeito de Buriti Bravo, João Leocádio (PDT).
Quanto ao mandante, até agora nada.
Os assassinos de Barra do Corda, a 459km de São Luís,
Moisés Alexandre Oliveira e Raimundo Oliveira Pereira, vaqueiros
acapangados, foram presos em 2000, mais de três anos depois do homicídio,
ocorrido em 1997. A vítima foi o líder comunitário sem-teto Miguelzinho
Pereira da Silva, abatido a tiros depois de gravar depoimento contra o
prefeito Manoel Mariano de Sousa, o Nenzim. Interrogados, os sicários
identificaram o mandante, Pedro Sousa, filho de Nenzim e irmão do
deputado estadual Rigo Teles (PSDB). Pedro e seus capangas chegaram a ser
presos, mas o desembargador Pires da Fonseca aviou-lhes um habeas corpus e
nunca mais o inquérito deu um passo.
Habeas corpus virou churrasco –– Mais complicado e chocante
é o crime da fazenda Comboio, em Bacabal, a 240km de São Luís.
Começou quando a fazendeira Iolanda Borges e seu amante Robério de Oliveira
Brígido resolveram vender as terras e, para valorizá-las, puseram para fora
uma pequena comunidade de antigos moradores, liderada por Pedro Mota,
posseiro vintenário.
Mota voltou acompanhado de outros lavradores, arregimentados
entre os sem-terra do município. Iolanda recorreu ao prefeito José Vieira.
Interessado na compra da fazenda, o prefeito articulou-se com um dos juízes
da comarca, Raimundo Sampaio, que recentemente passara três anos afastado do
cargo, sob bem fundada suspeita de corrupção.
Em menos de 24 horas, Sampaio expediu a liminar de despejo,
cumprida pela PM “na marra”, ilegalmente, sem cópia do mandado e sem a
presença de oficial de justiça, mas com apoio de uma lancha e de capangas do
prefeito, além de um helicóptero policial enviado de São Luís pela
Secretaria de Segurança. A maioria dos posseiros deu o fora, porém Mota e
outros poucos insistiram em permanecer nas redondezas. Por causa disso,
foram atacados por Brídigo (o amante de Iolanda) e um grupo de capangas
participantes da operação de despejo. Queriam Mota. Não encontrando Mota,
seqüestraram, espancaram e assassinaram Antônio Gregório da Conceição e o
menor Raimundo Filho de Aquino, de 17 anos. Todos os diretamente implicados,
inclusive Iolanda e Brígido, estiveram presos. A todos a Justiça mandou
soltar. Um churrasco em Bacabal (Colunão 7/10/04) comemorou a
liberação do grupo.
Ainda estão presos os dois assassinos de João Leocádio,
prefeito de Buriti Bravo, a 519km de São Luís. Mas isso se deve
provavelmente ao fato de que matar um prefeito recém-eleito (em 2004), no
pleno exercício do cargo, não é o mesmo que abater um sem-teto sem eira nem
beira ou dois camponeses sem fortuna. Além do mais, Leocádio era do PDT,
partido integrante da atual base governista no Maranhão.
Nem por isso o caso Buriti caminha de forma satisfatória.
Até agora não apareceu nenhuma prova que cimente a generalizada suspeita de
que o mandante foi o ex-prefeito Wellington Coelho (PFL), velho manda-chuva
local. Entretanto, descartada a hipótese de “suicídio por motivo passional”,
inicialmente considerada pela Polícia, só o interesse político parece capaz
de explicar o crime. E só Wellington e o vice-prefeito Nonato Pereira, que
assumiu com a morte do titular – mas de quem não se suspeita – poderiam ter
interesse na morte de Leocádio.
As últimas e surpreendentes notícias são de que a Justiça
autorizou uma segunda exumação do cadáver, para que a perícia possa fazer a
necropsia pela terceira vez. Trata-se de achar uma segunda bala que teria
passado despercebida nas avaliações anteriores. Dizer o quê? Enquanto isso,
nos bastidores, advogados cumprem seu papel: cozinham requerimentos de
habeas corpus em favor dos pistoleiros.

Ano 9, número 32 EDITOR: WALTER RODRIGUES
S. Luís (MA), 20/07/05
Tudo errado em Bacabal
Nem a liminar arbitrária permitia à Polícia expulsar os
posseiros
Ao contrário do que há dias vem dizendo a imprensa de São
Luís, os dois homens recentemente seqüestrados e assassinados numa fazenda
do município de Bacabal, a 240km da capital, não morreram na seqüência de um
despejo determinado pela Justiça. Morreram na sequência de uma ação policial
arbitrária, apoiada por empregados da prefeitura e desprovida de cobertura
legal.
Havia de fato um mandado de reintegração de posse concedido
abusivamente pelo juiz da 1a vara de Bacabal, Raimundo
Sampaio Silva. Entretanto, além de não autorizar o uso de força policial, o
mandado estava em poder do oficial de justiça –– que não participou da
operação. Logo, não houve “reintegração de posse”, mas sim uma operação em
que policiais civis e militares, tanto quanto os empregados da prefeitura,
atuaram como capangas ou seguranças particulares. A diferença é que os
funcionários da secretaria de Segurança cumpriam ordem superior, ao passo
que a prefeitura informa que nem sabia que seus servidores iam fazer “hora
extra”.
O despejo dos posseiros da fazenda Comboio, de 800 hectares,
resultou de uma articulação entre a proprietária legal do imóvel, Iolanda
Borges; o advogado Robério de Oliveira Brígido, companheiro de Iolanda; o
prefeito de Bacabal, José Vieira; e o secretário de Segurança, Raimundo
Cutrim. Depois foram mobilizados o delegado regional da Polícia Civil,
Alberto Wagner Santos Costa, e o comandante da Polícia Militar em Bacabal,
major Adenílson de Santana.
Sampaio requer comentário à parte. O juiz da 1a
vara de Bacabal não mandou usar a força, mas desde o princípio atuou de
maneira socialmente insensível e juridicamente escandalosa. Nenhum juiz ao
mesmo tempo instruído e sério concede liminar contra posseiros antigos,
definidos no Código Civil como os que residem há pelo menos um ano e um dia
no local.
Bacabal inteira sabia que Pedro Mota, primeiro da lista dos
requeridos no mandado, mora há cerca de 20 anos naquelas terras, e que
muitos de seus companheiros também estão ali há anos. Um dos que sabia era o
prefeito José Vieira. Há dois anos ele quis comprar a fazenda, deu uma
olhada e desistiu. “Tinha muita roça e muito roceiro”, explicou na última
sexta-feira. O mesmo ocorreu com o presidente do sindicato dos pecuaristas
do município, Carlinhos Florêncio.
A “estranha” decisão do juiz faz lembrar que ele até
recentemente estava suspenso das funções, graças a uma sindicância da
Corregedoria da Justiça. Ou antes: graças aos cometimentos registrados em
1998 no relatório da sindicância, entre os quais a extorsão, a fraude e o
tráfico de habeas corpus. Seu retorno à magistratura, após mais de três anos
de afastamento, é um desses “mistérios” que o Judiciário jamais explica.
O despejo dos posseiros ocorreu no dia 4. Com apoio de
policiais civis e militares e de empregados da prefeitura de Bacabal, num
total de mais ou menos doze homens, o advogado Robério afugentou as 30
famílias estabelecidas no local. Os policiais foram conduzidos numa lancha
particular do prefeito Vieira e num helicóptero do GTA (Grupo Tático Aéreo),
enviado de São Luís pela secretaria de Segurança. Deram tiros para assustar,
mas não feriram ninguém.
Na madrugada do dia 9, Robério reapareceu acompanhado de
três capangas e seqüestrou os lavradores Antônio Gregório da Conceição, 30
anos, e Raimundo Filho de Aquino, 17. Ambos insistiam em permanecer na
fazenda. Foram espancados e liquidados com tiros na cabeça por um dos
capangas do advogado, Moacir Figueiredo, de 52 anos. Robério está foragido.
Figueiredo e os outros capangas, assim como a dona da fazenda, na cadeia.
Os fatos apurados pelo Colunão são incontestáveis,
tanto à luz de documentos e depoimentos judiciais, quanto de entrevistas com
os envolvidos.
Uma das peças mais importantes é o depoimento de Iolanda na
delegacia regional. Dele ressalta que:
1) quando ela e o finado marido compraram as terras, há 15
anos, já encontraram quatro famílias de moradores, entre elas a de Pedro
Mota, filhos e sobrinhos, cuja permanência numa faixa das terras foi
consentida pelos novos proprietários;
2) há cinco meses, ao saber que Mota requerera usucapião de
sua posse, a fazendeira e o atual companheiro, o advogado Robério, mandaram
incendiar as casas dos lavradores, que mesmo assim recusavam-se a ir embora
e ainda teriam trazido outras famílias para morar no local.
3) em 27/6, Robério ingressou com ação de “reintegração de
posse” contra Mota e os demais, obviamente uma fraude, visto que Mota era
legítimo posseiro, e não um “invasor”.
4) ainda no dia 27, Iolanda visitou o juiz e o prefeito, ao
primeiro pedindo “empenho” e ao segundo “ajuda no sentido de que houvesse
celeridade no processo de reintegração de posse”. (O prefeito nega ter
pressionado ou convencido o juiz).
5) A Justiça anda rápido quando quer. Sampaio deu a liminar
apenas quatro dias depois, em 1o/7,
e no mesmo dia um oficial de justiça e quatro PM já tentavam chegar ao local
para cumprir o mandado, não conseguindo porque, segundo Iolanda, o caminho
fora interditado pelos “invasores”. (O oficial de justiça informou,
entretanto, que não cumprira a liminar porque o carro em que viajavam atolou
no caminho).
6) Iolanda novamente pediu ajuda ao prefeito, o qual,
segundo o depoimento, emprestou-lhe sua lancha particular. (Vieira confirma
o pedido, mas ressalva que emprestou à lancha não à fazendeira, mas ao
delegado regional Alberto Wagner Santos Costa, que o procurara em sua
residência).
7) Mandado cumprido no dia 4, “de forma pacífica”, segundo
Iolanda, que em seguida relata “ameaças” que seus empregados estariam
sofrendo por parte dos que chama de “invasores”.
Ao depoimento da Iolanda, somam-se duas certidões em poder
do Colunão. Uma da oficial de Justiça Jelcilene Gomes Ferreira. Ela
atesta que devolveu aos autos o mandado judicial, “sem o efetivo
cumprimento”. Diz também ter sido informada de que a reintegração fora feita
“pela polícia”. Evidentemente a polícia não tem autoridade para substituir
os oficiais de justiça, mas apenas para acompanhá-los e protegê-los, quando
devidamente requisitada pela autoridade judicial.
A segunda certidão foi expedida dia 14 pelo cartório do 1o
ofício de Bacabal. Certifica que Sampaio não requisitou força policial para
cumprimento da liminar.
E como é que se explica a presença da polícia? Explica-se
com a revelação de um telefonema do prefeito ao secretário de Segurança.
Vieira confirma. Diz que ligou para o amigo Cutrim “recomendando” a amiga
Iolanda. Foi o bastante para mobilizar o GTA, a PM e a Polícia Civil. O
secretário entende que “invasão é crime” e que, nesses casos, a Polícia não
precisa de ordem judicial para agir. Talvez Cutrim não soubesse que entre os
“invasores” havia posseiros com mais tempo de residência na fazenda Comboio
do que ele tem na secretaria de Segurança, cuja chefia assumiu em 1997.
Nesse caso terá sido enganado pelo telefonema de Vieira.
Quem se declara enganado, entretanto, é o prefeito. Diz que
não sabia que Robério vivia maritalmente com Iolanda. Se soubesse, nem
ligava para o secretário, nem muito menos emprestava a lancha. “Dona Iolanda
é mulher decente, mas esse advogado é ruim, um bicheiro protegido dos meus
inimigos”, alega. Os “inimigos” são sobretudo o senador João Alberto e o
vice-governador Jura Filho, ambos do PMDB de Bacabal. Embora sejam todos
correligionários na ampla coligação chefiada pelo senador José Sarney e pelo
governador José Reinaldo (PFL).
Há outros “inimigos” na lista do prefeito. Um deles é o
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bacabal, especialmente os diretores
que ele acusa de repassar “informações falsas” à Federação dos
Trabalhadores na Agricultura (Fetaema). Foi a Fetaema quem alertou o
Colunão para as falhas no noticiário cotidiano sobre as mortes e a
suposta “reintegração de posse” em Bacabal.
Vieira acha que “tem gente importante” por trás do que
ocorreu na Comboio, mas não seria ele, nem os demais envolvidos. “O
Carlinhos Florêncio continua interessado naquelas terras, e eu soube que ele
andou por lá dias antes da expulsão dos moradores”, insinua.
O prefeito foi presidente da beligerante UDR de Bacabal, na
segunda metade dos anos 80. Na época, ele e o irmão Ananias –– também
filiado à organização dos inimigos da reforma agrária –– responderam a
processo criminal, acusados da destruição de uma vila de camponeses,
Aldeias. Acabou inocentado na Justiça, mas o irmão precisou fugir do Estado.
E a UDR, como vai? “Saí faz tempo, e aqui não tem mais UDR.
O que era a UDR agora é o sindicato dos pecuaristas, que só pensa em tratar
o lavrador com violência. Já eu sou diferente. Resolvo tudo no amor e no
carinho”, explicou o prefeito. Ele lamenta a participação de empregados da
prefeitura no despejo da fazenda Comboio. “Mas tenho 2.000 funcionários. Não
posso responder pelo que faz cada um deles sem minha ordem”.
 Ano 8 – Ed. 294
EDITOR: WALTER RODRIGUES – S.Luís (MA), 9.1.2005
Acusações convenientes
Zé Vieira só é mau no EMA quando desagrada o esquema Sarney
Bastou o ex-prefeito José Vieira ingressar no
espichado secretariado estadual (assumiu a nova Secretaria Extraordinária de
Coordenação do Médio Mearim), para que O Estado do Maranhão se
lembrasse de velhas suspeitas e acusações contra o novo auxiliar do
governador José Reinaldo.
Vieira tomou posse quarta-feira (22), numa cerimônia
prestigiada pelo líder tucano Roberto Rocha e pelo prefeito pedetista Tadeu
Palácio. Já na quinta saiu no EMA que Zé Vieira “vem sendo
investigado há um ano pela Polícia Federal, sob suspeita de participação no
crime organizado no Maranhão”. Ex-prefeito de Bacabal (1997-04), principal
município do Médio Mearim, Vieira estaria envolvido em assaltos, assassinato
de lavradores, receptação de cargas roubadas, desvio de verbas públicas e
fraudes tributárias, segundo relatório do superintendente da PF no Maranhão,
Francisco Leônidas da Silva. Um dos casos suspeitos é a chacina da fazenda
Comboio (Colunão 20/7/03), um escândalo de impunidade consentido pela
Justiça maranhense.
O problema é que o esquema Sarney só desova esses relatórios
no EMA quando lhe convém. Pois não é de hoje que se liga Zé Vieira à
violência política no interior do Estado. Vem do tempo em que presidia a
seção municipal da UDR (União Democrática Ruralista), truculenta organização
dos inimigos da reforma agrária, sendo acusado de usar até equipamento
militar na destruição de um povoado de camponeses. Escapou da Justiça com
dificuldade, porém o irmão dele foi condenado e até hoje está foragido. Nem
por isso Vieira foi mal acolhido no sarneísmo em 2002, quando trocou o
candidato tucano Roberto Rocha pelo pefelista José Reinaldo, assim como
voltou a aliar-se a Roberto quando a ambos pareceu conveniente.
Vieira faz lembrar Davi Alves Silva, famigerado ex-deputado
federal e ex-prefeito de Imperatriz (MA), também acusado de chefiar uma
cáfila de sicários e salteadores, sem nunca ter sofrido uma condenação. Foi
aliado em diferentes ocasiões dos ex-governadores João Castelo, Roseana
Sarney e Epitácio Cafeteira. Quando Davi foi morto por um de seus capangas
em 1998, o pedetista Jackson Lago lançou-se com avidez sobre suas bases e
até quis fazer da irmã de Davi sua candidata ao Senado. Os principais
davinistas do Mearim, Luís Osmani (Lago da Pedra) e Juscelino Resende
(Vitorino Freire), hoje estão com Zé Vieira.

|