EDITOR:  WALTER RODRIGUES
Ano 1 – nova série – no 9 Luís (MA), 2 a quinzena de julho de 2006
http://wr.colunao.ma.sites.uol.com.br ——  wr.walter@uol.com.br

 

NESTA EDIÇÃO

1 — História real do ‘Jornal Pequeno’ (II - final)
Revista e saite concebidos para fazer acordo com Roseana

2 — A verdade é o que menos importa
Jornais em guerra eleitoral deturpam pesquisa do Ibope no MA

3 — Diálogo  (artigos alheios & cartas)
Carajás, Lula, Truffaut, Mulheres, Heloísa, Cafeteira e Sarney

4 — Senadinho (Idéias & toques sem muita formalidade)
A cabeçada de Zidane foi um ato sincero numa Copa medíocre

5 — ‘Ponto de Interrogação’
Sobre denúncias de peculato, crime eleitoral, homicídio, torturas etc

6 —  Carta do Editor
Está suspensa a edição de papel

 

 

 

 

 

 

 

História real do ‘Jornal Pequeno’ (II – final)

Revista e saite concebidos para facilitar acordo com Roseana

Em maio de 2001, ao completar 50 anos, a direção do Jornal Pequeno inaugurou seu sítio na Internet e deu de presente aos leitores uma “revista especial” comemorativa, com “pesquisa e texto” do professor Alberico Carneiro, mas obviamente orientado pelo editor geral Lourival Bogéa. Essas duas iniciativas, mais a reunião comemorativa realizada na “casa de eventos” Espaço Renascença, coincidiram no propósito de favorecer o entendimento político com a governadora Roseana Sarney, que dava então os primeiros passos no malogrado projeto de concorrer à Presidência da República.

O saite dispensa maiores comentários. Ainda hoje — quando o jornal pratica uma linha tucano-governista-sectário-oportunista, sob o pretexto do anti-sarneísmo, sem a mais remota preocupação com a qualidade da informação — a “prova do crime” está lá, no endereço http://www.jornalpequeno.net/, num breve texto intitulado “História do JP”.

Transcrevo e comento as passagens principais:  

“Em 29 de maio de 1951, o Jornal Pequeno foi lançado em São Luis pelo jornalista José de Ribamar Bogéa, num momento em que todos os órgãos de imprensa do Estado, de uma forma ou de outra, achavam-se vinculados a grupos ou partidos políticos. Circulavam à época no Maranhão os jornais ‘O Combate’, ‘Jornal do Povo’, ‘Tribuna’, dos partidos de oposição; ‘O Imparcial’ e ‘O Globo’, do grupo ‘Diários Associados’; ‘Diário de São Luís’ e ‘Diário Popular’, de roupagem abertamente governista, comandados pelo grupo do então governador Vitorino Freire.”

Note-se aqui e mais adiante a clara intenção de situar o jornal acima das facções e ainda o erro clamoroso de transformar o senador Victorino Freire (1098-1977) “em governador”, cargo que ele jamais exerceu.

Prossegue:

“O Jornal Pequeno, ainda em seus primórdios, fez história, porque surgiu na condição de único órgão de imprensa conceitualmente apartidário, fora de todas as propostas e propósitos políticos vigentes. (...).”

Conclusão:

“O sentido de liberdade, porém, ainda é o mesmo, a isenção diante dos fatos e da notícia se mantém intacta. Ainda representa o JP, a trincheira dos anseios e da vontade popular”.

Nenhuma palavra sobre a “luta histórica” contra o sarneísmo, hoje gabada e aumentada em prosa e verso, que naquele instante interessava minimizar. Toda a ênfase numa suposta posição de neutralidade, que muito menos correspondia à verdade. O JP recebeu com simpatia o golpe militar de 1964 e apoiou sem rodeios a campanha de Sarney a governador no ano seguinte. Fez o mesmo em 1986 quando Epitácio Cafeteira candidatou-se ao Governo com apoio de Sarney, e novamente em 1994, já sob a direção de Lourival Bogéa, quando Cafeteira, retornando à oposição, quase vence Roseana no segundo turno

Só contaram uma parte da história

A “revista especial” dos 50 anos marchou na mesma direção. A capa faz alusão a “meio de século de resistência”, mas nenhum artigo sugere que essa “resistência” tenha a ver com Sarney ou sarneísmo, até porque, 50 anos atrás, Sarney e o JP eram aliados. Isso é reconhecido num artigo do melhor jornalista da casa, Ademário Cavalcanti — hoje de “férias” forçadas — publicado quando o jornal fez 45 e republicado na revista do cinqüentenário:

“(O JP) adotou uma linha editorial de combate a Victorino Freire .... sem no entanto negar espaço para suas defesas. Essa linha anti-Victorino atravessou os anos 60, quando Sarney se lançou candidato a governador. O JP abraçou sua candidatura a governador...”.

Mas há também imprecisões nesse texto, certamente por influência dos sentimentos da direção geral. Ao tratar do processo de Sarney contra Bogéa, omite-se a participação do deputado Domingos de Freitas Diniz, dando a entender que Bogéa teria sido processado por alguma reportagem ou editorial do próprio JP:

“Nos anos 60, Sarney governador, o Jornal Pequeno abriu as comportas contra seus métodos políticos e administrativos, foi processado e, por pouco, livrou-se de ser fechado e o seu diretor-fundador preso. Somente se salvou pela argumentação de Ribamar Bogéa e pela defesa do então deputado federal Henrique de La Rocque...”.

Salvou-se, antes de tudo, porque Freitas Diniz assumiu a integral responsabilidade pelo texto incriminado e o Supremo Tribunal Federal entendeu corretamente — para vergonha de facciosos magistrados do Tribunal de Justiça do Maranhão — que Bogéa e o JP não podiam ser castigados pelo artigo do parlamentar. Vale registrar que no início do processo a situação era diferente: deputados ainda eram invioláveis por opinião (prerrogativa que o AI-5 lhes tomaria), recaindo sobre os editores a responsabilidade penal pelos “crime de imprensa” que eventualmente cometessem.

Esse artigo de Ademário, datado de 29/5/96, três semanas após a morte de Ribamar Bogéa, ao omitir a participação essencial de Freitas Diniz no episódio, não o fez certamente por vontade própria, mas sim para atender à moda da casa. Há anos o jornal reescrevia a história, de modo a eliminar o protagonismo do deputado e atribuir-se um “oposicionismo” que na verdade fora conseqüência e não causa da briga. Tanto assim que, cinco antes, em 1991, Diniz escrevera sobre “Os 40 anos do Jornal Pequeno” não no JP, onde seu implacável anti-sarneísmo era visto com reservas, mas sim no Imparcial, que aceitou de bom grado a matéria paga.

Correto neste artigo, entre muitas outras passagens, é o elogio a duas características do antigo JP: o honesto respeito objetivo aos fatos (que não é nenhuma quimera, a despeito de certo filosofismo barato que tenta justificar toda sorte de falsificação e mercantilismo) e a abertura à controvérsia.

“O Jornal Pequeno, com sua linha apartidária, rápido conquistou a confiança dos leitores. Uma nota desagradava às Oposições Coligadas, outra aos aliados de Victorino e a Eugênio de Barros [governador eleito em 1950]. Abrigava articulistas dos dois lados .... não se atrelava a ninguém .... Não procurava distorcer os fatos...”

Faltou acrescentar apenas que essa quase “neutralidade” em parte decorria da “simplicidade” do próprio Bogéa, que se guiava muito mais por instinto que por qualquer consciência crítica, e que de fato nunca teve opinião formada sobre a maioria dos temas que balizam o debate político. Tinha, isto sim, a forte convicção de que nenhuma força exterior tinha o direito de lhe interditar a vontade, quando decidia publicar alguma coisa. Neste sentido, favoreceu a liberdade de expressão como nenhum outro, naqueles tempos, inobstante aquela “simplicidade” descambasse muitas vezes para o sensacionalismo, o desrespeito à intimidade e à dignidade humanas, o mau costume de nunca reconhecer que errou (muito praticado até hoje na imprensa maranhense), a difamação sem limites e a injúria grosseira.

Nem o Papa escapou da piada

Dois exemplos: certa vez um magistrado agonizava e o JP, por engano, noticiou-lhe a morte. Bogéa não quis corrigir a barriga (o antifuro, na gíria dos jornalistas). Dias depois, quando o desembargador realmente faleceu, o JP deu um título assim: “Até que enfim morreu...” Ainda mais grotesca foi a manchete com que a edição de 14/5/1981 noticiou o atentado ao papa João Paulo II em Roma: “Entupiram o papa de bala no seu carango”. (Na véspera dos 50 anos, num jantar, o jornalista José Machado, prata da casa do JP, contou o episódio às gargalhadas para um convidado especial, o jornalista Bernardo Ajzenberg, da Folha de S.Paulo, sem atentar para o misto de perplexidade e indignação nas exclamações do visitante.

A revista dos 50 anos parece ter sido cuidadosamente planejada para evitar problemas — com a família Sarney e com os leitores. Como a aproximação com Roseana e Jorge Murad apenas começava, optou-se por simplesmente colecionar textos antigos do jornal, em vez de produzir também textos novos, como seria natural. Assim o JP evitava tomar posição na conjuntura presente, deixando tudo por conta do passado.

Mesmo isso não pareceu suficiente. Era preciso reescrever o passado para melhor facilitar a transição para o futuro que se avizinhava e negociava. Assim, a “antologia” não recolheu nenhum dos inúmeros editoriais que Ribamar Bogéa escreveu contra Sarney. Matérias irrelevantes ou até mesmo medíocres foram destacadas, porém nenhuma que denunciasse ou criticasse o ex-presidente — como tantas vezes ocorrera enquanto o fundador vivia. O mais perto que disso chegou foi na transcrição de uma entrevista quase amena do velho Bogéa acerca de sua briga com Sarney. Fora daí, apenas um artigo de terceiro com críticas superficiais ao senador e uma notinha  debochada assinada com pseudônimo. Tudo tendente a demonstrar que o litígio entre Bogéa fora pouco mais que um mal-entendido que já estava na hora de superar.

O arremate de tudo isso, de uma seleção de “melhores momentos” que às vezes faz indagar sobre os piores, não está no fim da revista, mas no começo. Uma longa introdução sobre o “meio século de vida e resistência”, na qual se fala até do pioneirismo de Bogéa na publicação do “plantão de farmácias”, mas não se diz uma palavra sobre o combate a Sarney e ao sarneísmo. Segundo esse texto, a “importância histórica” de Bogéa se deve  a “cinco fatores”: o primeiro foi ele ter criado inicialmente um jornal de esportes como “plano piloto” do JP, embora não fique bem claro o que isso significa; o segundo, a linguagem popular que adotou; o terceiro, a família que construiu; o quarto, os filhos que treinou para sucedê-lo; o quinto, enfim, porque o JP, naqueles 50 anos, “esteve presente em todos os acontecimentos que marcaram a história do Maranhão, desde a morte de Satu Belo no começo dos anos 50”  — e daí não consegue passar.  A história do JP, resenhada em 1991, termina em 1951. O texto é assinado por Alberico Carneiro, porque o editor, Lourival Bogéa, este  não pôs uma linha na revista.

Roseana Sarney foi a estrela da festa do JP no Espaço Renascença. Rodeada e homenageada pelos donos da casa, ouviu uma única voz dissidente. O pastor Eduardo Bogéa, residente nos Estados Unidos, sentiu o clima esquisito e encheu a voz na advertência ao microfone:

—  O coração do Bogéa é a alma do Jornal Pequeno. Modernizem, atualizem, prosperem, mas não mexam no coração do Bogéa! 

A verdade é o que menos importa

Jornais em guerra eleitoral deturpam pesquisa do Ibope no MA

A “guerra midiática” em torno da recente pesquisa do Ibope no Maranhão mostra mais uma vez que o Sistema Mirante de Comunicação — tão justa e frequentemente acusado de sectarismo e manipulação de informações — não é o único nem o mais agressivo nessa prática adversa aos interesses da cidadania. Até jornais que no passado conseguiam conciliar governismo com um mínimo de sobriedade, como O Imparcial, agora mergulham de cabeça em ousadias que não resistem à análise crítica.

Para ficar somente na mídia impressa, tudo começou com a seguinte manchete d’O Estado do Maranhão de 16/7: “Ibope: Senadora tem o dobro das intenções de voto dos demais candidatos ao Governo. Roseana tem 66% e vence no primeiro turno, diz pesquisa”.

Correto? Não, por vários motivos. O primeiro é um errinho simples de apontar e certamente involuntário. A pesquisa não diz nem poderia dizer que Roseana “vence no 1o turno”, já que se trata de “intenção”, não de adivinhação de voto. Mas isto não é o pior.

Logo abaixo da manchete, um amplo quadro colorido informa: “Números da pesquisa — votos válidos:  Roseana Sarney (PFL) 66%; Jackson Lago (PDT) 24%; Edson Vidigal (PSB) 5%; João Bentivi (Prona) 1%;  Marcos Silva (PSTU) 1%; Ribamar Pedrosa (PCO) 1%; Antônio Aragão (PTC) e Saturnino Moreira (PSOL), zero.

 Votos válidos, como se sabe, são aqueles dados aos candidatos registrados. A Justiça Eleitoral apura também os votos nulos e os votos em branco, mas divulga os resultados oficiais, tanto no primeiro, quanto no eventual segundo turno das eleições, considerando apenas os percentuais obtidos pelos candidatos — isto é, os votos válidos.  Dito isso, é certo apresentar uma pesquisa considerando apenas os votos válidos?  Sim, desde que todos os pesquisados declarem a intenção de votar num determinado candidato ou de votar nulo ou branco, o que é praticamente impossível de ocorrer, ainda mais faltando ainda 60 dias para a eleição.

Jornal invalida o que querNa página 3 da edição, o EMA informa que “Quando estão tabulados os votos nulos, brancos e dos entrevistados que não revelam em quem vão votar, a candidata do PFL aparece com 60% de preferência, deixando Jackson Lago com 21%, Vidigal com 5%, Marcos Silva, Ribamar Pedrosa, João Bentivi e Aderson Lago com 1%. Brancos e nulos somam 6% e 3% dos eleitores não revelaram de que forma vão votar”.

Grifei as últimas palavras para assinalar o erro do EMA. Voto calado, voto que não se revela, não é o mesmo que voto “inválido”.  Nem mesmo seria possível anunciar os “votos válidos” incluindo aqueles 3%, pois quem não abre seu voto, este tanto pode ter a intenção de votar válido, quanto inválido. É por isso que o Ibope e outros institutos divulgam suas pesquisas incluindo nulos, brancos e “não sabe/não opinou” (doravante NBN/N). Confira em www.ibope.com.br.

O próprio EMA, contraditoriamente, quatro dias depois, na edição de 20/7, seguiu o padrão normal, ao divulgar na primeira página que Lula tem 71% das intenções de voto no Maranhão, numa tabulação em que há 6% de NBN/N. Na página interna, porém, a matéria também especula sobre “votos válidos”, com o mesmo erro básico da outra.

Com alguma generosidade é possível acreditar que o jornal da família Sarney tenha errado apenas por excesso de entusiasmo, já que a consideração dos NBN/N não mudava a posição de Roseana em face dos adversários. Com os 60% da pesquisa verdadeira, Roseana continua na situação anunciada de ter o dobro da soma dos outros oito candidatos (30%). De mais a mais, até agora ninguém havia contestado objetivamente o conceito de “voto válido” adotado pelo EMA — eu próprio não percebi imediatamente a distorção. Mas também é possível suspeitar de manipulação deliberada, como veremos adiante.

Já no caso do Imparcial e do Jornal Pequeno é quase incogitável a hipótese de mero descuido ou entusiasmo eleitoreiro, salvo no caso de desvario. A análise do que fez o Imparcial vale também para o JP,  visto que praticamente escreveram as mesmas coisas (e às vezes com textos bem parecidos...).

Inicialmente o matutino governista reagiu ao Ibope com a velha tolice de que a pesquisa “verdadeira” é a pesquisa espontânea, não a induzida. Espontânea é a pesquisa em que apenas lhe perguntam em quem quer votar. Quanto mais longe não só da eleição, mas também do registro das candidaturas — como observou o jornalista Roberto Kennard, do Diário da Manhã — maior é o interesse que as espontâneas podem ter. Registradas as candidaturas, sua importância cai a muito pouco, quase nada. Interessa aí somente a pesquisa induzida, aquela na qual o pesquisador mostra os nomes dos candidatos ao eleitor.

Manchete estragadaOs números da pesquisa espontânea, divulgados no Imparcial de 19/7, são os seguintes:

Roseana — 21%;  Jackson — 5%; Vidigal — 2%. Não sabe/não opinou, 59%; branco e nulo — 9%; José Reinaldo — 1%;  candidatos com menos de 1% — 2%.  A soma, aí, não chega a 100, pára em 99%, mas os “arredondamentos” decerto bastam para explicá-lo). Também aí Roseana tem mais que o dobro dos demais candidatos registrados (21% contra 9%), mas isso, como já foi dito, não significaria quase nada, se não fosse confirmado pela pesquisa induzida. O Imparcial, entretanto, resolveu extrair desses números uma conclusão absolutamente delirante.

O jornal dirigido por Pedro Freire tinha uma verdade interessante para contar na edição de 19/7. A de que Roseana, apesar da larga vantagem sobre os concorrentes, já esteve melhor. Em dezembro do ano passado, tinha 65% das intenções de voto (na pesquisa induzida, evidentemente), caindo agora para 60%. Jackson, no período, passou de 15% para 22%, subindo 7 pontos percentuais. Possivelmente foi isso que o Sistema Mirante quis ofuscar com a fantasia dos supostos “votos válidos”, de modo que Roseana parecesse estar aumentando, em vez de diminuindo.  

Sem compreender o truque — supondo-se que tenha sido um truque — O Imparcial estragou a manchete acrescentando uma mentira cavalar. Esta: “Ibope diz que indecisos chegam a 68%.”.

Para anunciar esse disparate o jornal considerou como “indecisos” todos aqueles que, na pesquisa espontânea (aquela que a esta altura não vale nada), não declararam voto em candidato registrado — com uma única e arbitrária exceção.

Começou pelos 59% que não quiseram responder ou disseram ainda não ter candidato, embora O Imparcial não possa adivinhar quantos estão no primeiro caso (não sabe) e quantos no segundo (não opinou, não respondeu). Não satisfeito, chegou aos 68% jogando na panela os 9% que na espontânea declararam a intenção de votar nulo ou branco. Como se zanga, desgosto ou indiferença fosse o mesmo que indecisão. Curiosamente, num ato de homenagem reverencial, considerou “decidido” e válido aquele 1% que declarou votar no não-candidato Zé Reinaldo.

E o leitor que se vire com tanta desinformação.

O Ibope também erra

Dois leitores do Colunão, o professor Wilson Barros e o jornalista e publicitário Daniel Mendes contribuíram com interessantes esclarecimentos sobre as pesquisas do Ibope. Leia no Blogue do WR (http://walter.rodrigues.zip.net).  Abaixo, resenha de um texto de Wilson Barros:

“O Ibope informa incorretamente uma margem de erro de 3% na sua pesquisa. Não existe margem de erro de pesquisa, e sim de candidato pesquisado. Essa margem de 3% é estimada antes da pesquisa, para uma probabilidade de 95%. Serve para estabelecer o tamanho da amostra, ou seja: quantas entrevista farei para que a margem de erro de um candidato dê no máximo 3%?  Até porque, como já assinalou o jornalista Daniel Mendes, ela não tem sentido para quem tem menos de 3%, pois este, então, “ficaria devendo voto na praça”.

O máximo só se verifica para o candidato que tiver 50% das indicações de voto. O cálculo é simples: 1,96 vezes a raiz quadrada de 0,5 ao quadrado, dividido pelo tamanho da amostra, que no caso do atual Ibope foi de 812. O que nos mostra outro erro: a margem de erro pré-estimada não foi de 3%, e sim de 3,43%.  É só pegar o lápis e calcular. Para a margem de 3%, o Ibope teria que fazer 1000 entrevistas.

Após a pesquisa, as margens de erro dos candidatos são facilmente calculadas pela fórmula citada. A de Roseana, por exemplo, é de 3,37%. A de Jackson, 2,85%. A de Vidigal, 1,49%. De onde decorre que o mais correto seria dizer, por exemplo, que Vidigal tem ‘entre 3,51% e 6,49%’, e não 5%.” 

Dois maranhenses no fogo

Deputado Ribamar Alves não está só no escândalo das sanguessugas

Ao contrário do que informa O Estado do Maranhão na edição de 19/7, Ribamar Alves, do PSB, não é o único deputado da bancada maranhense enrolado no escândalo das “sanguessugas”, a máfia de parlamentares, prefeitos e fornecedores acumpliciados para embolsar o dinheiro federal destinado à aquisição de ambulâncias para atender a cidades do interior do país.

Alves, ex-candidato a prefeito de Santa Inês (MA), está na lista dos primeiros 57 implicados divulgada pela CPI das Sanguessugas. Mas seu colega de bancada Remi Trinta (PL), que não figura na lista, também teve seu nome citado em investigações da Polícia Federal e da CPI.

Na última sexta-feira, a CPI informou que há mais de outros tantos deputados com graves suspeitas de participação no escândalo. A diferença é que estes últimos receberam a propina em dinheiro vivo, ao passo que o “grupo dos 57” autorizou que ele fosse depositado em suas próprias contas ou nas contas de parentes e assessores. Mas a expectativa da CPI é que os depoimentos colhidos pela PF permitam rastrear os pagamentos em dinheiro e comprovar o envolvimento de todos.

Ribamar Alves era conhecido como integrante da chamada “bancada hospitalar”, até vender seu hospital em Santa Inês no governo José Reinaldo.  Remi Trinta ex-titular da esdrúxula secretaria de Medicina Preventiva, criada especialmente para ele no governo Zé Reinaldo, já esteve anteriormente envolvido em denúncia de desvio de verbas do SUS e até em racismo. No começo de 1999, ao destratar um comissário de bordo negro, foi agredido e preso em flagrante pela PF no aeroporto de Belém.

NOTA: O deputado federal César Bandeira (PFL) também consta como provável “sanguessuga” numa segunda lista divulgada pela CPI após a publicação desta matéria na edição de papel do Colunão. O deputado Remi Trinta (PL), citado numa gravação sigilosa autorizada pela Justiça, permanece como simples suspeito.

Stédile na ESG, um diálogo necessário

A desobediência civil do MST segue a tradição dos abolicionistas

Um fato de grande relevância para a saúde das instituições ocorreu no último dia 18, quando o coordenador nacional do MST (Movimento dos Sem-Terra), João Pedro Stédile, falou por mais de duas horas sobre Reforma Agrária e Meio Ambiente, a 100 estagiários da Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio, um dos “laboratórios” do golpe militar de 1964. 

Ao cabo da palestra e dos debates, o comandante da ESG,  general João Benedito de Barros Moreira, criticou a “burrice” das elites econômicas do país  —  em geral inimigas da distribuição de renda e portanto da ampliação do mercado interno — e adiantou que concorda com Stédile em “praticamente tudo”, menos em seus “métodos de ação”. Se é só isso, o próprio Stédile e o MST podem também concordar com o general, visto que ninguém pode “gostar” de promover ocupações e gerar conflitos em que tão frequentemente se expõe a represálias violentas. Mas a historia do Brasil mostra que as grandes transformações sociais, especialmente as que implicam tomar poder e dinheiro às classes dominantes, não dispensam a atuação de amplos movimentos de desobediência civil.

Embora  a maioria das escolas não nos ensine assim, a verdade é que o ato corajoso da princesa Isabel em favor dos escravos foi precedido de revoltas e fugas em massa e da “insubordinação” de militares que se recusaram ao papel de “capitães do mato”  — que muitos deles exerceram.  Tudo isso inviabilizou de tal modo a permanência da escravatura, por mais “legal” que fosse, de tal modo que quando a princesa assinou a Abolição, somente uns poucos ainda achavam possível prolongá-la por muito tempo.  A maioria, quando não a desejava, pelo menos a reconhecia como inevitável. 

O que se discutia, e muito, era se os libertos deviam ser ajudados com a oferta de lotes de terra e modestas subvenções estatais, ou se, pelo contrário, a elite escravagista é que merecia indenização pela perda patrimonial.

Princesa libertária — Documentos recém-publicados (Nossa História, n.31, maio de 2006) mostram que Izabel pretendia atender ao partido dos ex-escravos. Seus planos foram arquivados pelo golpe militar republicano de 15 de novembro de 1889.

A importância de falar aos militares sobre a necessidade de aprofundar a reforma agrária não está em que devam ser convocados para impô-las ao baronato civil reacionário. Não é necessário, assim como não foram eles que libertaram os escravos, e até se lhes pode debitar a vergonha de não terem distribuído as terras e o mínimo de indenização que aos negros teria permitido recomeçar a vida em melhores condições. Basta que não se permitam utilizar como capitães do mato contra os movimentos sociais e que, como cidadãos, nos estritos limites constitucionais, reclamem dos métodos, se assim desejam,  mas reconheçam a urgência e a justiça dos objetivos.  Sobretudo quando o sangue que escorre, seja  na ponte do Tocantins, seja em Corumbiara, seja em Eldorado de Carajás, não é o dos latifundiários amantes da ordem injusta, mas sim o dos que querem mudar este mundo para melhor.

No mesmo encontro com Stédile, o general Barros explanou acerca do agravamento do conflito no Oriente Médio, demonstrando exata compreensão do que ali ocorre.  Ele disse que o massacre dos palestinos na Faixa de Gaza e os terríveis bombardeios de Israel no Líbano - que não somente liquidam civis à vista como tratam de matá-los a prazo, pela metódica destruição da infra-estruturado país -  são acontecimentos incompreensíveis sem referência ao imperialismo dos Estados.  Israel só faz o que faz, disse, porque tem a cobertura econômica, diplomática e militar de Washington.

Eis aí, certamente, mais um ponto em que o general e o líder do MST certamente estão de acordo. E o que acontece no Oriente Médio pode amanhã ocorrer aqui, tendo em vista a crescente infiltração militar dos EUA na Amazônia (Colômbia e Equador, sobretudo), as descabidas ameaças à Venezuela e a presença de tropas imperialistas no Paraguai, onde já começam a entrar em conflito com as organizações camponesas locais. É um quadro da maior gravidade, que inquieta tanto aos civis quanto aos militares não-submissos da América do Sul.

PARALELAS

Gatos e ratos

A Cemar divulgou na imprensa que as ligações ou derivações clandestinas lhe dão prejuízo de R$ 100 milhões, e ao Estado de R$ 25 milhões, em ICMS não arrecadado. No Imparcial, a matéria destaca que essa prática “é crime e dá cadeia”. Dá nada. Nunca deu, pelo menos no Maranhão.

Além do mais a matéria mistura o caso de quem “puxa a energia” da rua porque a Cemar não lhe presta esse serviço, com a de quem mete um “gato” para reduzir o registro do consumo.

Pior ainda é que deixa de ao menos mencionar — não por vontade do repórter, está claro — o caso mais famoso de acusação de “eletrogato”, ocorrido na campanha eleitoral de 2004.

Vergonha

Informação do coordenador do grupo maranhense Gayvota:

Dos doze assassinatos de homossexual ocorridos em São Luís de 2000 a 2005, média de dois por ano, o único solucionado foi o que teve como vítima o filho de um desembargador.

Eis aí um bom tema para o controle externo da Polícia e da Justiça, bem como para a OAB-MA e para a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos.

Proteção seletiva

Projeto de Roseana Sarney recém-aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado estabelece que os infectados pelo HIV ou pelo HCV não poderão ser demitidos sem justa causa.

Nada contra, mas por que somente as vítimas da AIDS e da hepatite C, e não também os cancerosos e outros portadores de moléstias graves?

Saiu de fininho

O diretório regional do PT desistiu de levar adiante a lorota de que seria “falsa” a assinatura de Lula na mensagem de simpatia que o presidente dirigiu a Roseana a propósito de recente convenção do PFL.

Atitude correta e prudente, tanto mais que essa graça pegou muito mal em Brasília, agravando o desprestígio da sessão estadual.

Mas o certo mesmo, depois de embarcar tolamente nesse factóide juvenil, seria o partido dizer claramente que se enganou, e fim.

Data vênia

D’O Estado do Maranhão de 13/7/06, primeira página: “Venda de gás diminui devido ao preço caro”.

Caro ou barato é o gás, não o preço. O preço é alto ou baixo, justo ou injusto, maior ou menor.

Família desunida

O empresário Eduardo Lago tem dois primos concorrendo ao Governo do Estado, Jackson Lago (PDT) e Aderson Lago (PSDB), que também são primos entre si. Outros dois primos de Eduardo, irmãos de Jackson, Wagner Lago (PDT) e Zé Luiz Lago (PPS), são candidatos a deputado federal. Um terceiro, Bete Lago, mete a cara a estadual.

Eduardo, que é casado com uma irmã de Jorge e Ricardo Murad, vota em Roseana e noutros candidatos da coligação sarneísta. O último Lago em que ele votou foi Jurandir Lago, vice na chapa de Zé Reinaldo em 2002. Que não é parente.

Metamorfose

Quando Aderson Lago despertou certa manhã de um sono agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de laranja.

Em tucanês...

Não é laranja. É “candidato auxiliar”.

Montado na grana

Esta edição fechou sem que se soubesse o valor dos bens de Roseana (embora seja provável que a imprensa diária consiga divulgá-lo neste fim de semana). Em geral, dá-se como certo que a filha de Sarney tem o maior patrimônio dentre os atuais candidatos ao Governo do Maranhão. Enquanto a prova não chega, o campeão é o ex-presidente da Caema, Aderson Lago (PSB), cujas posses quase igualam a dos três que lhe chegam mais perto. Compare:

Bentivi (Prona):  R$ 650 mil;

Jackson (PDT): R$ 407 mil

Vidigal (PSB): R$ 402 mil.

Bentivi + Jackson + Vidigal: R$ 1,459 milhão.

Aderson: R$ 1,334 milhão

E isso porque ele só compra o que está bem baratinho, incluindo avião e apartamento pechincha de R$ 200 mil e pouco no Leblon.

Fortuna de Fecury

Dos atuais candidatos, ninguém bate em fortuna o empresário Clóvis Fecury, que deseja renovar seu mandato de deputado federal. Filho do senador suplente e ex-prefeito Mauro Fecury e dono da faculdade privada UniCeuma, seu patrimônio declarado bate em R$ 5 milhões. Só um apartamento nos EUA vale R$ 1 milhão.

Sócio adverso

Vidigal ainda tem cotas — poucas — da Gráfica Escolar Ltda, editora do jornal O Estado do Maranhão. Está na declaração de bens dele.

Tucanaria geral

Zé Reinaldo está com Lula, mas os jornais que só enxergam excelsas virtudes no governo dele — Imparcial e JP — estão com Alckmin. 

Seminário menor

Do veterano Jurivê Macedo, n’O Estado do Maranhão, usando o seu “latim lá do seminário”, conforme explicou, para comentar declaração pró-Lula de Fernando Collor: “Similia similiabus curantur”. O que, segundo o colunista, “numa tradução curta e grossa”, significaria “os iguais se procuram”.

Talvez não seja grossa, mas com certeza é uma tradução distraída. A frase significa “o semelhante cura o semelhante”. Provém da Antiguidade clássica e serve de lema aos homeopatas desde o século 19. Não tem nada a ver com os “iguais se procuram” ou “os opostos se atraem”.

Deve ter sido por isso que o brilhante colunista de Imperatriz não virou padre...

Data vênia

D’O Estado do Maranhão de 13/7/06, primeira página: “Venda de gás diminui devido ao preço caro”.

Caro ou barato é o gás, não o preço. O preço é alto ou baixo, justo ou injusto, maior ou menor.

Otimismo inabalável

Com seus 5% no Ibope (contra 24 de Jackson e 66 de Roseana), Vidigal não perde o otimismo. Ele acha que neste começo de campanha o mais importante não é a pesquisa dita “estimulada”, aquela na qual o eleitor eleitor declara o voto olhando os nomes dos candidatos, e sim a pesquisa “espontânea”.

Na espontânea, o pesquisado responde sem que lhe digam quem é candidato, do que resulta um percentual muito maior de “não sei” e “não tenho candidato”.

“A campanha ainda mal começou, e 5% na estimulada é até animador”, disse o ex-magistrado. “Agora, quem está por cima só tende a cair”.

Tucano saliente

Dia desses, num ato público, o candidato a senador João Castelo (PSDB) zangou-se feio com Flávio Dino (PCdoB), só porque o ex-magistrado ousou criticar as tucanagens de FHC, o presidente que vendeu a Vale do Rio Doce e o sistema Telebrás na bacia das almas.

Mentindo Flávio não estava.

Casa de enforcado

Lourival Peta Bogéa, diretor-geral do Jornal Pequeno, deu agora para publicar insinuações que desinquietam a própria filha, moça direita e firme, com todo o direito de viver a própria vida.

De mais a mais, ainda vale o bom conselho: “Macaco, olha o teu rabo”.

DIÁLOGO

Seção reservada a artigos, cartas e outras manifestações alheias, selecionadas, tituladas e, se necessário, condensadas pelo Editor. É preferível que os originais não ultrapassem 30 linhas e tragam nome, endereço, profissão e telefone dos autores. Aos identificá-los, o Editor poderá acrescentar outros dados pertinentes. Têm preferência na publicação os “direitos de resposta” e outros textos alusivos a matérias do semanário. Respostas a outros jornais serão examinadas ara eventual publicação, desde que ignoradas pelos destinatários. Em tais casos, o Colunão ouvirá os respectivos editores sobre o motivo da recusa, dando ciência aos leitores do resultado da consulta.

A verdade escondida em Carajás

Guilherme Zagallo,

advogado, coordenador do movimento Reaje São Luís

O Colunão de 18/6/06 publicou nota de nossa autoria com informações incorretas sobre as reservas de minério de ferro da província mineral de Carajás. Registramos no Colunão no 6 a preocupação com o volume das reservas de minério de ferro divulgadas pela Companhia Vale do Rio Doce, que atenderiam pouco mais de 20 anos de operação no volume atualmente praticado de exportação anual de 100 milhões de toneladas de minério.

 Fomos alertados pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto que os volumes corretos das reservas de minério de ferro são muito superiores. Consultando fontes independentes, como o geólogo Breno Augusto dos Santos, integrante da equipe da US Steel que em 1967 descobriu a província mineral de Carajás (*), verifica-se que o volume real das reservas de Carajás é da ordem de 18 bilhões de toneladas de minério de ferro (ano base 2002), e não de 2,1 bilhões de toneladas, como informa a Companhia Vale do Rio Doce à Securities and Exchanges Comission -SEC (Comissão de Valores Mobiliários norte-americana) em junho/2006.

 Esta confusão vem desde a época da privatização, em que os recursos minerais da Companhia Vale do Rio Doce foram subavaliados. O edital de privatização da Vale, de 6/3/1997, afirmava que “o Sistema Norte tem reservas provadas e prováveis de minério de ferro estimadas em aproximadamente 1,8 bilhões de toneladas, em Carajás, no Estado do Pará (representando uma vida útil da mina de 34 anos, aproximadamente, nos níveis atuais de produção), e outros depósitos de minério de ferro, próximas a Carajás, estimados em aproximadamente 15,4 bilhões de toneladas".

Para efeito de cálculo do preço das ações da empresa no processo de privatização foram consideradas apenas as reservas provadas e prováveis de 1,8 bilhões de toneladas.

No entanto, a própria CVRD havia informado, em 8/5/95, à Securities and Exchanges Comission (SEC) que as reservas lavráveis medidas e indicadas de minério de ferro de Carajás eram da ordem de 4,97 bilhões de toneladas. Este valor foi reduzido em 28/6/96 para 1,8 bilhões de toneladas, quando já havia sido iniciado do processo de privatização da empresa.

Assim, a falta de transparência da Vale acerca do volume das reservas na verdade esconde a questão do preço de venda da empresa no leilão de privatização, que está sendo discutido na Justiça (vide, por exemplo, acórdão no processo 199739000055300 do TRF da 1a Região, disponível para consulta no endereço arquivo.trf1.gov.br). Nestes processos, autores populares e o Ministério Público Federal pedem que o preço de venda da Vale seja reavaliado, com a possibilidade de pagamento das diferenças entre o valor pago e o valor real da empresa, se considerados todos os direitos minerários conhecidos à época da privatização.

Como não interessa à Vale discutir o volume de suas reservas minerais, a sociedade maranhense e paraense se vê privada de discutir o que ocorrerá quando estes recursos não renováveis se esgotarem.

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 (*) A USS juntou-se posteriormente à Vale na Amza (Amazônia Mineração S/A), empresa constituída para exploração do ferro de Carajás. O consórcio adiante se desfez, quando a Vale adquiriu a metade das ações pertencente ao sócio norte-americano.

Mulheres na Ciência

Freitas Diniz

engenheiro

No ano passado, o ex-presidente (reitor) da Universidade de Harvard (EUA), Larry Summers, levantou uma polêmica internacional sobre a diferença natural entre homens e mulheres, como causa da pequena contribuição das mulheres às lógicas, às matemáticas e à ciência.

Na semana passada, o neurobiólogo Ben Barres, da Universidade de Stanford, com doutorado em Harvard, “ataca o machismo em estudos cognitivos” e “nega que haja menos mulheres cientistas e matemáticas por razões biológicas.”

Diz a Folha de S.Paulo de 13/7/2006 que o que mais dá crédito a Ben Bares “na discussão sobre a diferença entre homens e mulheres é que, ao longo da maior parte de sua acadêmica, ele foi conhecido como doutora Bárbara. Em 1997, trocou de sexo ao iniciar um tratamento com hormônios.” Barres é um transexual.

Com relação às lógicas e matemáticas, temos exemplos que corroboram o ponto de vista de Barres, na discussão da tese.

A lógica que adotamos comumente em nossos raciocínios e argumentos é fundamentada nos princípios aristotélicos da não contradição — “uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo” — e do terceiro excluído — “toda proposição ou é verdadeira ou falsa, isto é, verifica-se sempre um destes casos, e nunca um terceiro”. É uma lógica consistente, porque não contém contradição, e bivalente porque só admite dois valores lógicos.

Por outro lado, existem as lógicas paraconsistentes, que admitem contradição, as lógicas polivalentes ou paracompletas que derrogam o princípio do terceiro excluído e as lógicas não-reflexivas, inclusive a do físico notável Schrondiger, que derrogam o princípio de identidade ou princípio reflexivo da igualdade — “todo objeto é idêntico a si mesmo”.

Perguntando por telefone ao matemático brasileiro Newton da Costa, único do mundo que formalizou integralmente a lógica para consistente e respectiva matemática, sobre as aplicações da lógica paraconsistente, respondeu-me remetendo cópia de um ensaio da brasileira Leila Zardo Purga.

Segundo Purga, são aplicações filosóficas (na dialética, na filosofia da ciência, na filosofia da lógica, na ontologia), lógico-matemáticas, científicas (na psicologia), no direito (do ponto de vista teórico e prático), tecnológicas (na programação de computadores, na inteligência artificial e conseqüentemente na robótica).

Tomamos também conhecimento, recentemente, do uso da lógica paraconsistente em engenharia de tráfego, nos transportes aéreos e terrestres (Scientific American Brasil, novembro de 2004).

Portanto, a engenharia poderá usar a lógica e a matemática paraconsistentes para calcular o melhor tráfego sobre uma ponte, mas para calcular a sua estabilidade terá que usar a lógica e a matemática consistentes, senão a ponte cai.

A lógica trivalente é aplicada pela grega Fotini Markopoulo-Kalamara, numa matemática difícil, a teoria matemática dos topos, fulcro das teorias unificadas dos físicos e cosmólogos da atualidade.

Purga e Markopoulo-Kalamara são exemplos notáveis de como as mulheres podem atuar e criar nas lógicas, nas matemáticas e na ciência em geral.

Críticas a Cafeteira

Senhor jornalista — Dizia Henry Ford que “não é o dinheiro que modifica o homem, ele apenas o desmascara”. Tal pensamento enquadra-se no candidato Epitácio Afonso Pereira, ou simplesmente Cafeteira, um paraibano que migrou para o Maranhão em tempos idos, um dia desapareceu de surpresa e anos depois voltou para cá.

Naquela época já mostrava a esperteza que aperfeiçoaria ao longo dos anos. Da carroceria de um velho caminhão transformado em palanque, proclamava que “cada voto em Cafeteira” valia por “uma ripada na Onça”, isto é, no governador Newton Bello, apelidado Cara de Onça pelo povo. Após o que recebia os abraços e participava do grogue oferecido pela turma que o acompanhava. Foi assim que se tornou muito popular e elegeu-se deputado federal e depois prefeito da capital.

O acontecimento mais importante dessa fase foi ele ter que se homiziar no próprio prédio da Prefeitura, devido ao governador Sarney mandar a Polícia cercar a sede da administração municipal, com o objetivo de prendê-lo. Em seguida deu-se o episódio em que Ivar Saldanha, disputando a Prefeitura com Cafeteira, mostrou na TV os cheques sem fundo emitidos pelo concorrente e ainda o acusou de vender passagens aéreas fornecidas pelo Congresso aos deputados.

O aterro do Bacanga reativou novo desentendimento, com acusações recíprocas. Depois veio o caso da morte de Reis Pacheco, a mando de Cafeteira, segundo a imprensa sarneísta. Por último, a escandalosa revelação do Granville, explorado em “dó maior” pelos menestréis da difamação, o mesmo bloco liderado pelo senador. Questionamos, a respeito dessas irregularidades, por que o senhor Cafeteira nunca propôs à Justiça qualquer ação contra tantas ofensas alardeadas pelos seus delatores?

Apesar de todo esse tiroteio desferido pelos tutelados do senador Sarney, agora vem Cafeteira oferecer seu apoio à Roseana. Por quê?

Na minha opinião, essa atitude de Cafeteira apenas mostra que Henry Ford tinha razão.

WR — Publico esta carta por amor à controvérsia, mas discordo da personalização da crítica. Pois o apoio de Cafeteira a Roseana não é menos surpreendente que o de Roseana a Cafeteira, ou que a aliança Jackson/Roseana em 2000, ou Jackson/Castelo atualmente, ou Lula/Sarney, ou Aderson (A farra é Grande) Lago com Zé Reinaldo e tantas outras. Sem contar que a aliança de ex-inimigos não é menos “chocante” que a briga de ex-amigos...

Caso Granville foi a exploração maliciosa e político-eleitoral de um fato — uma remessa de cerca de US$ 1 milhão de São Luís para o Rio —, não de uma ficção. Caso Reis Pacheco é um drama em dois atos ou em dois crimes. Um foi o seqüestro e tortura do ferroviário, obra de pessoas “próximas a Cafeteira”, ou pior. Outro, a denunciação caluniosa de homicídio, contra Cafeteira, obra de pessoas “próximas a Sarney”, ou pior.

Não há registro histórico de que a Polícia tenha cercado a sede Prefeitura, com ordens de prender o prefeito Cafeteira. O prefeito armou-se preventivamente receando a cassação intentada na Câmara e até uma possível intervenção estadual, mas nunca houve o cerco policial, nem a ordem de prisão referidos pelo leitor.

Ao exibir os cheques, naqueles idos de 1965, Ivar Saldanha usou grosseiro mas legítimo recurso de campanha. Esclarecido pelas explicações de Cafeteira, o eleitorado admitiu corretamente que a emissão de cheques sem fundo não é necessariamente um ato desonesto. Na maioria das vezes decorre de engano ou de expectativa frustrada. Muito mais generosos foram os eleitores que perdoaram o “eletrogato” flagrado na residência e numa fábrica do atual prefeito de São Luís, Tadeu Palácio (PDT), mas também é direito deles. Se é que todos sabiam da verdade, pois muitos mentiram a respeito.

O PSOL só faz confusão

Caro Walter — Gostaria de comentar carta do companheiro e amigo Valdeny Barros (Colunão nova série no 8), na qual, por sua vez, comenta opinião do poeta Zeca Baleiro e sua posição em apoio a Lula. Não li a análise do poeta por isso me aterei unicamente ao que indica Valdeny.

 Primeiro o poeta é criticado por atacar “Alckmin naquilo em que este é mais parecido ao Governo Lula: os escândalos e a falta de ética”. Parece ter o companheiro caído no conto midiático e direitista segundo o qual o dito “mensalão” foi o “maior escândalo de todos os tempos”, dando como fato consumado aquilo que, mesmo depois de tanta investigação e cobertura ampliada da grande mídia, deixou dúvidas graves como, por exemplo:. que sentido faz deputados petistas figurarem como mensaleiros, já que estes já votam com o Governo? Esqueceu-se Valdeny do elenco (e não um ou outro) de escândalos do governo tucano — compra de votos da reeleição, Sivam, a farra do Proer, o caso Marka/FonteCindam, os rombos na Sudam e Sudene, pasta cor-de-rosa, acidentes na Petrobras, apagão etc, sem termos de comparação com o atual governo, tanto em número de escândalos quanto em volume de dinheiro envolvido (R$ 100 bilhões só na privataria).

 Valdeny esquece da diferença que há entre “corrupção no Governo” e “Governo corrupto”. Pode haver corrupção nos melhores governos, o que é bem diferente de um governo cujo modo de operar ou essência seja a corrupção, ou seja, um governo corrupto. No governo de Chávez, por ex., os poucos casos são (tal qual aqui) fortemente explorados pela grande mídia. Lá, segundo a imprensa, tem-se o pior governo que já existiu. É impossível a um governo afundado em corrupção, e com baixo crescimento do PIB como temos tido, aumentar o poder aquisitivo do salário mínimo, quintuplicar a verba da agricultura familiar, fortalecer a máquina pública (com ingresso de mais de 40.000 novos servidores), ampliar o ensino público superior (com concursos públicos, reajustes salariais, mais bolsas de pesquisa, criação de novas universidades, etc.), direcionar R$ 8 bilhões/ano para o Fome-Zero, e criar mais de 1 milhão de empregos/ano, dentre outros avanços do governo Lula -- como juros bem mais baixos (o que gerou em 1 ano, segundo a Folha de S.Paulo de 17/07/06, economia de R$ 78 bilhões).

 O poeta é criticado por criticar o PL e ter supostamente esquecido que este partido faz parte da base do governo. Ora, uma coisa não impede a outra. Se bem me lembro, em 2002, o companheiro Valdeny (bem como todo o atual PSOL), assim como eu, estávamos justamente criticando a aliança com o PL, sem contudo deixar de apoiar Lula e o PT.

Valdeny comparou a fala do poeta ao “Eu tenho medo” de Regina Duarte (2002). Sem comparação com o que a direita vem fazendo atualmente quando tenta, p. ex., colar a imagem do PT à do PCC. Enquanto isso, a mídia (a direita) vem inflando a candidatura do PSOL que, por sua vez, fortalece a direita, ecoando o mesmo discurso moralista, com uma boa dose de histeria e o sectarismo dos que consideram o governo Lula “neoliberal”, restando mostrar quais as medidas neoliberais de Lula.

Não conseguimos ainda vislumbrar qualquer programa político do PSOL para o Brasil. Só confusão. A mesma que leva a candidata Heloísa Helena a disparar: “Nem Bush nem Chávez”! Vago assim, genérico assim, resta-lhe apenas a postura sectária e histérica.

João de Deus Castro, maranhense, petista e servidor público residente em São Paulo. (jdeus17@hotmail.com).

Meu caro Walter — No nosso Maranhão de paixões políticas, ódios e vaidades, a imaginação fértil de alguns cria mitos e lendas que se transformam em “verdade”, na maioria das vezes pela pouca importância que as vítimas dessas calúnias dão aos seus algozes. O alvo mais freqüente é o ex-presidente José Sarney, cujo prestígio nacional e internacional dispensam comentários.

Não posso calar-me, entretanto, diante da distorção da História praticada recentemente  por um de seus leitores, quando diz que o ex-presidente, encerrando o mandato, “saiu pelos fundos do Palácio da Alvorada”. Como você sabe, quem saiu pelos fundos, não do Alvorada, que é residência dos presidentes, mas sim do Palácio do Planalto, sede do Governo, foi o presidente Fernando Collor, sucessor de Sarney. Após passar a faixa presidencial para seu sucessor, a 1o de janeiro de 1990, Sarney desceu a rampa acompanhado de familiares, amigos e colaboradores, entre eles o governador Epitácio Cafeteira. Detalhe: aplaudídissimo, ao tirar do bolso um lenço branco para acenar à multidão. Para quem se esqueceu, envio-lhe a foto do acontecimento. Um abraço,

Eduardo Lago, São Luís (MA).

SENADINHO

Idéias & toques sem muita formalidade

 

Cabeça de herói

Quando Zidane deu aquela cabeçada em Materazzi na final da Copa, e acompanhei nas horas seguintes o seu quase linchamento pela mídia internacional, lembrei-me imediatamente de Nelson Rodrigues, autor de À sombra das chuteiras imortais, reunião de crônicas sobre futebol que não canso de reler. Com certeza, no dia seguinte ele teria disparado algo como: “A cabeçada de Zidane foi uma atitude épica. Só um comandante gaulês poderia ter atingido um adversário com aquela magnitude! Foi um golpe digno de um Obelix!”.

Concordo plenamente. Já vi cotoveladas fulminantes, bicudos na canela, tesouras voadoras, cuteladas, sola no joelho, cuspe na cara, mordida na orelha, beliscão na bunda, puxões de cabelo, sucessivas camas de gato .... mas uma cabeçada como aquela, nunquinha da silva! E mais: numa Copa autenticamente de plástico, anódina, inodora, Copa excessivamente bem comportada (com exceção do jogo Holanda e Portugal), de baixo nível técnico, dominada pelo marketing e pelo interesse de patrocinadores, um dos únicos, se não o único verdadeiro e humano homem em campo, foi o craque Zidane. O rei que cuspiu no próprio mito e na idéia dos heróis perfeitos. Vocês imaginariam, por exemplo, Ronaldo ou Roberto Carlos fazendo algo parecido? Jamais! Não têm estatura para tanto. Que saudade de Nelson Rodrigues!

A imprensa é hipócrita ou conivente. Prefere se lambuzar com o comportamento politicamente correto dos jogadores e acoberta os bons mocinhos, os endinheirados muito bem patrocinados. Lembram de Pelé agredindo com uma cotovelada o zagueiro Matosas, do Uruguai, na Copa de 70, num lance sucessivamente repetido em especiais e vídeos, como exemplo de esperteza?.

Sim, Pelé foi esperto. Zidane foi humano. Pelé bateu e ninguém viu. Zidane deu e todo mundo viu, principalmente depois que o telão do estádio mostrou a repetição do lance. Zidane foi expulso pelo telão. Até Tostão, o mais humano dos comentaristas, jogou pedra no craque francês, retirando o voto que deu a ele como o melhor jogador da Copa. Ah, Tostão, você que cita Drummond, Lispector, Pedro Nava, em seus artigos sobre futebol, que diz compreender a complexidade da alma humana, vem agora querer exigir que tenhamos em campo um Deus idealizado, um herói mítico. Desça do Olimpo. Estamos na Terra, lugar de homens falhos, filhos de defeitos e virtudes.

Sim, a cabeçada de Zidane foi o ato mais verdadeiro desta Copa medíocre, regida pelo poder dos vídeos, dos Gaviões Bovinos e dos ‘phenômenos’ de araque. Uma Copa em que nossa seleção mais parecia dopada pelo avesso, passiva, apática, como um bando de atletas recém “bolados”, como se diz na gíria dos malucos. Ave, Zidane! (Celso Borges, de S.Paulo).

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LANCES DO BLOGUE

(http://walter.rodrigues.zip.net)

Justiça torta (30/6/2006)A Comissão Pastoral da Terra (CPT) protesta contra a decisão do SupremoTribunal Federal de liberar da cadeia o mandante do assassinato de irmã Doroty Stang, a freira norte-americana liquidada por defender os posseiros do interior do Pará:

“No dia de ontem, 29/06, a primeira turma do Supremo Tribunal Federal, STF, contrariando todas as decisões das Instâncias anteriores, mais próximas ao caso, concedeu hábeas corpus a Regivaldo Pereira Galvão, empresário, preso, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de Ir. Dorothy Stang. Desta forma poderá aguardar em liberdade o julgamento. O relator, ministro Cezar Peluso, em seu voto, considerou “a prisão preventiva absolutamente ilegal”. Seu voto foi acompanhado pelos ministros Sepúlveda Pertence e Marco Aurélio Melo. Votaram contra a concessão, os ministros Ricardo Lewandowski e Carlos Ayres Brito.

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra, reunida em Goiânia, diante desta decisão que a deixou pasma, tem a dizer:

Não é nenhuma novidade a justiça conceder tal benefício, sobretudo a quem dispõe de meios econômicos ou a quem ocupa posição de destaque na sociedade. O mesmo STF concedeu o benefício da liberdade ao coronel Mário Pantoja e ao major José Maria Oliveira, condenados respectivamente a 228 e 158 anos de reclusão pelo massacre de Eldorado de Carajás.

A liberdade a este empresário que liderou o consórcio para assassinar irmã Dorothy, como afirmou em juízo um dos executores, além de ser uma afronta, é uma ameaça aos trabalhadores, lideranças e defensores dos direitos humanos na região. Esta liberdade certamente será aproveitada para a intimidação das testemunhas de acusação. Também não será nada difícil que outras lideranças se tornem alvo de violências por parte deste grupo. Por outro lado, esta liberdade poderá significar a impunidade, porque o empresário, conhecido na Transamazônica como Taradão, tem condições econômicas mais que suficientes para fugir da região e mesmo do País, para não se submeter ao julgamento e conseqüente condenação, a exemplo do que aconteceu com os fazendeiros Jerônimo Amorim, Adilson Laranjeira e Vantuir de Paula, mandantes do assassinato dos sindicalistas Expedito Ribeiro e João Canuto, de Rio Maria, também no Pará

O Estado do Pará tem uma história marcada pela impunidade em relação aos crimes ocorridos no campo. A CPT do Pará entregou ao presidente do Tribunal de Justiça do Estado uma relação de 774 assassinatos ocorridos no Estado nos últimos 35 anos. Desse total, em cerca de 70% dos casos não houve qualquer apuração sobre a responsabilidade pelos crimes. Não há um mandante sequer desses crimes condenado e cumprindo pena atrás das grades. A decisão do STF reforça esse estado de impunidade e contribui para a continuidade da violência contra os que defendem a vida e a floresta amazônica.

A CPT mais uma vez afirma, o que já muitas vezes tem dito. Há dois pesos e duas medidas no Judiciário brasileiro. O mesmo STF, que concedeu hábeas corpus para Regivaldo, em dezembro de 2005 determinou o despejo dos Guarani-Kaiowa da aldeia Ñande Ru Marangatu, no município João Antônio, Mato Grosso do Sul, com a suspensão dos efeitos da homologação feita pelo presidente da República da área tradicionalmente ocupada pelo povo Kaiowá-Nãndeva, colocando mais de 500 índios à beira da estrada.

Para a justiça brasileira, comumente, a liberdade dos trabalhadores, acusados por delitos, é sempre um perigo. Por que os 42 trabalhadores do MLST, presos por terem participado do ato na Câmara Federal, não podem responder em liberdade ao processo e ainda se pede a prisão preventiva de outros 73? Enquanto são concedidos os benefícios da lei para empresários e pessoas de destaque, estes mesmos benefícios são negados aos trabalhadores.

Quem representa maior perigo para a sociedade brasileira: os trabalhadores que lutam por direitos e reforma agrária, ou quem se utiliza do poder econômico e político para concentrar mais riqueza, escravizar o homem e a terra, ameaçar e assassinar lideranças!

Exigimos o julgamento imediato de Regivaldo e Vitalmiro, acusados de serem os mandantes do assassinato de irmã Dórothy! A impunidade não pode prevalecer!

Goiânia, 30 de junho de 2006

A coordenação nacional

PONTO DE INTERROGAÇÃO

Onde se cobram providências das autoridades sobre dos três poderes do Maranhão, em casos concretos relativos a corrupção administrativa e violação de direitos humanos e sociais.  Assegura-se espaço ao esclarecimento dos interessados. O leitor pode colaborar sugerindo outras cobranças.

Que dia a Justiça vai obrigar os envolvidos no escândalo do Fundo de Pensão da Assembléia a devolverem o mal-havido?

Que falta para a identificação e captura dos mandantes do assassinato do prefeito de Buriti Bravo (MA), João Leocádio, abatido por mercenários em 2004?

Onde foram parar os R$ 44 milhões subtraídos à Sudam na fraude da Usimar?

Quando o TRE-MA julgará os processos em que Zé Reinaldo & Jura Filho, Roseana Sarney & Edison Lobão são acusados de abuso de poder econômico nas eleições de 2002?

Quando haverá punição para os PMs do Pelotão de Choque que torturaram detentos de Pedrinhas em pelo menos duas oportunidades, fato provado e documentado para além de qualquer dúvida?

Até quando ficarão impunes os implicados na chacina da fazenda Comboio, em Bacabal?

Quando a Justiça Federal vai punir o desvio de R$ 1,5 milhão em verba do Meio Ambiente no município de Marajá do Sena (MA), no ano eleitoral de 2000? Quais as conclusões da sindicância ordenada no Ibama-MA pelo então ministro Sarney Filho?

Quando a Justiça vai julgar os crimes de tortura e morte relacionados ao ex-delegado Jean Charles? 

Repousa em que gaveta o escândalo da Coliseu (gestão Jackson Lago?)

Por que a Justiça permite a impunidade do assassinato do   líder comunitário Miguelzinho Pereira da Silva, abatido em 1997 em Barra do Corda (MA)?

Quando será finamente construída a estrada Arame–Paulo Ramos, pretexto para pagamentos de R$ 33 milhões solicitados pelo ex-secretário e atual governador José Reinaldo e autorizado pela ex-governadora  Roseana Sarney.

Quando serão julgados os processos por estelionato e improbidade (e possível peculato) em que são réus os ex-secretários municipais Mauro Bezerra e Helena Aranha?

Quando o Estado do Maranhão vai tentar recuperar as verbas desviadas nas ratoeiras da Kao-I e da Copama?

 

 

CARTA DO EDITOR

Suspendo a edição de papel,

mas isso não há de ser nada

A partir desta edição está suspensa, pelo menos temporariamente, a edição de papel deste Colunão. O principal motivo é que me falta lastro financeiro para organizar  uma estrutura comercial e de distribuição com a eficiência necessária. Falta-me também a disposição de pedir e, não raro, o ânimo de aceitar o que às vezes nem me parece desonesto, apenas impróprio. Isso, mais as minhas deficiências naturais e adquiridas, pesa mais que as mesquinharias de que tenha sido alvo e que me parecem perfeitamente coerentes com meu conhecimento da realidade local.

Basta mencionar que o Governo do Estado, com suas 60 ou 70 secretarias, sabe-se lá quantas são, até agora só adquiriu duas assinaturas do Colunão, embora compre um caminhão de assinaturas dos jornais que lhe fazem a corte. Pelo menos num caso, a aquisição foi comprovadamente barrada pelo assessor de Imprensa José Machado, que ali atua menos como funcionário do Estado e mais como agente comercial do Jornal Pequeno. Sua “fidelidade” chega ao ponto de ter cessado de enviar os boletins informativos da Assessoria para minha caixa postal eletrônica, apenas 24 horas depois de cessado o meu contrato de encarte no Jornal Pequeno. Ele é rápido. Assim  como fez, rapidamente teria desfeito, e com mil escusas, se acaso eu me permitisse reclamar ao governador, coisa que nunca fiz.

Mas essa é  só uma história entre tantas, muitas das quais não me animo a contar agora.  Certamente o leitor está lembrado de que o distribuidor do Estado do Maranhão e de Veja Agora foi proibido de distribuir também o Colunão, embora eu me dispusesse a lhe pagar a mesma comissão que os outros dois.  Assim como recorda que os jornaleiros vinculados ao JP foram informados de que este semanário era  “inaceitável”.

Completo este registro homenageando o deputado tucano-malufista Aderson Lago, cujos rapazes  — com a ajuda bastante simbólica de um auxiliar do deputado Mauro Bezerra, o dos Contracheques — continuam distribuindo contra mim um panfleto ignominioso que até semana passada eu supunha esgotado. Descobri que não. Pudera. Eles se gabam de imprimir  60 mil exemplares do boletim elaborado e gratuitamente distribuído por  sua  assessoria de imprensa, e essa montanha de papel não acaba assim de uma hora para outra.

Ele pode. Afinal de contas, ou das contas, trata-se do candidato a governador mais abonado da presente temporada,  pelo menos enquanto não  nos informam o valor dos bens de Roseana  Sarney Murad. E não deixa de ser uma homenagem ao jornalista esse empenho difamatório, no momento em que o deputado teria cinco milhões de motivos para dedicar-se à campanha de “candidato auxiliar” em tempo integral, ao menos para sair da irrelevância indicada na última pesquisa.

Paro o nosso tigre de papel cabeça erguida. Que outro jornal maranhense poria na primeira página que a mais famosa “estrada fantasma” do Maranhão é obra conjunta do atual e da ex-governadora? Que outro seria capaz de denunciar não somente a doação ilegal do Convento das Mercês, mas também o oportunismo de quem passou mais de dez anos calado e conivente e agora quer-se fantasiar de herói de uma causa que outrora nunca abraçou?

Neste saite —  e no blogue http://walter.rodrigues.zip.net

continuamos praticando o jornalismo independente e socialmente responsável que ninguém nos pode tirar. Aos assinantes da edição de papel, solicito a paciência de alguns dias. Uma carta circular deste editor lhes dirá como devem fazer para obter o ressarcimento ou a compensação a que têm  direito. Aproveito as últimas linhas para agradecer especialmente à Sociedade  Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos e aos sindicatos progressistas parceiros do Colunão — Sindsep  (Servidores Públicos Federais), Urbanitários, Bancários e Judiciários. Idem aos colaboradores intelectuais, tantos e tão bons que não dá para nominar a todos, pois esquecer um único nome seria grave injustiça. Fiquem certos os leitores e amigos que o Colunão continua, no saite, no blogue e noutras formas que logo adiante será possível inventar. Gostaria, portanto, de compartilhar  com vocês, não o  lamento de uma derrota que não vejo nem reconheço, mas a doce alegria de continuar lutando. 

Stédile na ESG, uma conversa necessária

Um fato de grande relevância para a saúde das instituições ocorreu no último dia 18, quando o coordenador nacional do MST (Movimento dos Sem-Terra), João Pedro Stédile, falou por mais de duas horas sobre Reforma Agrária e Meio Ambiente, a 100 estagiários da Escola Superior de Guerra (ESG), no Rio, um dos “laboratórios” do golpe militar de 1964. 

Ao cabo da palestra e dos debates, o comandante da ESG,  general João Benedito de Barros Moreira, criticou a “burrice” das elites econômicas do país  —  em geral inimigas da distribuição de renda e portanto da ampliação do mercado interno — e adiantou que concorda com Stédile em “praticamente tudo”, menos em seus “métodos de ação”. Se é só isso, o próprio Stédile e o MST podem também concordar com o general, visto que ninguém pode “gostar” de promover ocupações e gerar conflitos em que tão frequentemente se expõe a represálias violentas. Mas a historia do Brasil mostra que as grandes transformações sociais, especialmente as que implicam tomar poder e dinheiro às classes dominantes, não dispensam a atuação de amplos movimentos de desobediência civil.

Embora  a maioria das escolas não nos ensine assim, a verdade é que o ato corajoso da princesa Isabel em favor dos escravos foi precedido de revoltas e fugas em massa e da “insubordinação” de militares que se recusaram ao papel de “capitães do mato”  — que muitos deles exerceram.  Tudo isso inviabilizou de tal modo a permanência da escravatura, por mais “legal” que fosse, de tal modo que quando a princesa assinou a Abolição, somente uns poucos ainda achavam possível prolongá-la por muito tempo.  A maioria, quando não a desejava, pelo menos a reconhecia como inevitável. 

O que se discutia, e muito, era se os libertos deviam ser ajudados com a oferta de lotes de terra e modestas subvenções estatais, ou se, pelo contrário, a elite escravagista é que merecia indenização pela perda patrimonial.

Princesa libertária — Documentos recém-publicados (Nossa História, n.31, maio de 2006) mostram que Izabel pretendia atender ao partido dos ex-escravos. Seus planos foram arquivados pelo golpe militar republicano de 15 de novembro de 1889.

A importância de falar aos militares sobre a necessidade de aprofundar a reforma agrária não está em que devam ser convocados para impô-las ao baronato civil reacionário. Não é necessário, assim como não foram eles que libertaram os escravos, e até se lhes pode debitar a vergonha de não terem distribuído as terras e o mínimo de indenização que aos negros teria permitido recomeçar a vida em melhores condições. Basta que não se permitam utilizar como capitães do mato contra os movimentos sociais e que, como cidadãos, nos estritos limites constitucionais, reclamem dos métodos, se assim desejam,  mas reconheçam a urgência e a justiça dos objetivos.  Sobretudo quando o sangue que escorre, seja  na ponte do Tocantins, seja em Corumbiara, seja em Eldorado de Carajás, não é o dos latifundiários amantes da ordem injusta, mas sim o dos que querem mudar este mundo para melhor.

No mesmo encontro com Stédile, o general Barros explanou acerca do agravamento do conflito no Oriente Médio, demonstrando exata compreensão do que ali ocorre.  Ele disse que o massacre dos palestinos na Faixa de Gaza e os terríveis bombardeios de Israel no Líbano - que não somente liquidam civis à vista como tratam de matá-los a prazo, pela metódica destruição da infra-estruturado país -  são acontecimentos incompreensíveis sem referência ao imperialismo dos Estados.  Israel só faz o que faz, disse, porque tem a cobertura econômica, diplomática e militar de Washington.

Eis aí, certamente, mais um ponto em que o general e o líder do MST certamente estão de acordo. E o que acontece no Oriente Médio pode amanhã ocorrer aqui, tendo em vista a crescente infiltração militar dos EUA na Amazônia (Colômbia e Equador, sobretudo), as descabidas ameaças à Venezuela e a presença de tropas imperialistas no Paraguai, onde já começam a entrar em conflito com as organizações camponesas locais. É um quadro da maior gravidade, que inquieta tanto aos civis quanto aos militares não-submissos da América do Sul.