EDITOR: WALTER
RODRIGUES
Ano 1 – nova
série – no 9 Luís
(MA), 2 a quinzena de julho de 2006
http://wr.colunao.ma.sites.uol.com.br —— wr.walter@uol.com.br
NESTA EDIÇÃO
1 — História real do ‘Jornal Pequeno’ (II - final)
Revista e saite concebidos para fazer acordo com
Roseana
2 — A verdade é o que menos importa
Jornais em guerra eleitoral deturpam pesquisa do Ibope
no MA
3 — Diálogo (artigos
alheios & cartas)
Carajás, Lula, Truffaut, Mulheres, Heloísa, Cafeteira
e Sarney
4 — Senadinho (Idéias & toques sem muita formalidade)
A cabeçada de Zidane foi um ato sincero numa Copa medíocre
5 — ‘Ponto
de Interrogação’
Sobre denúncias de peculato, crime eleitoral,
homicídio, torturas etc
6 — Carta do
Editor
Está suspensa a edição de papel
História real do ‘Jornal Pequeno’ (II – final)
Revista
e saite concebidos para facilitar acordo com Roseana
Em maio de 2001, ao completar 50 anos, a direção do Jornal
Pequeno inaugurou seu sítio na Internet e deu de presente aos leitores uma
“revista especial” comemorativa, com “pesquisa e texto” do professor Alberico
Carneiro, mas obviamente orientado pelo editor geral Lourival Bogéa. Essas duas
iniciativas, mais a reunião comemorativa realizada na “casa de eventos” Espaço
Renascença, coincidiram no propósito de favorecer o entendimento político com a
governadora Roseana Sarney, que dava então os primeiros passos no malogrado
projeto de concorrer à Presidência da República.
O saite dispensa maiores comentários. Ainda hoje —
quando o jornal pratica uma linha tucano-governista-sectário-oportunista, sob o
pretexto do anti-sarneísmo, sem a mais remota preocupação com a qualidade da
informação — a “prova do crime” está lá, no endereço http://www.jornalpequeno.net/, num
breve texto intitulado “História do JP”.
Transcrevo e comento as passagens principais:
“Em 29 de maio de 1951, o Jornal Pequeno foi
lançado em São Luis pelo jornalista José de Ribamar Bogéa, num momento em que
todos os órgãos de imprensa do Estado, de uma forma ou de outra, achavam-se
vinculados a grupos ou partidos políticos. Circulavam à época no Maranhão os
jornais ‘O Combate’, ‘Jornal do Povo’, ‘Tribuna’, dos partidos de oposição; ‘O
Imparcial’ e ‘O Globo’, do grupo ‘Diários Associados’; ‘Diário de São Luís’ e
‘Diário Popular’, de roupagem abertamente governista, comandados pelo grupo do
então governador Vitorino Freire.”
Note-se aqui e mais adiante a clara intenção de situar
o jornal acima das facções e ainda o erro clamoroso de transformar o senador
Victorino Freire (1098-1977) “em governador”, cargo que ele jamais exerceu.
Prossegue:
“O Jornal Pequeno, ainda em seus primórdios,
fez história, porque surgiu na condição de único órgão de imprensa
conceitualmente apartidário, fora de todas as propostas e propósitos políticos
vigentes. (...).”
Conclusão:
“O sentido de liberdade, porém, ainda é o mesmo, a
isenção diante dos fatos e da notícia se mantém intacta. Ainda representa o JP,
a trincheira dos anseios e da vontade popular”.
Nenhuma palavra sobre a “luta histórica” contra o
sarneísmo, hoje gabada e aumentada em prosa e verso, que naquele instante
interessava minimizar. Toda a ênfase numa suposta posição de neutralidade, que
muito menos correspondia à verdade. O JP recebeu com simpatia o golpe militar
de 1964 e apoiou sem rodeios a campanha de Sarney a governador no ano seguinte.
Fez o mesmo em 1986 quando Epitácio Cafeteira candidatou-se ao Governo com
apoio de Sarney, e novamente em 1994, já sob a direção de Lourival Bogéa,
quando Cafeteira, retornando à oposição, quase vence Roseana no segundo turno
Só contaram
uma parte da história
A “revista especial” dos 50 anos marchou na mesma direção. A capa faz alusão a
“meio de século de resistência”, mas nenhum artigo sugere que essa “resistência”
tenha a ver com Sarney ou sarneísmo, até porque, 50 anos atrás, Sarney e o JP
eram aliados. Isso é reconhecido num artigo do melhor jornalista da casa,
Ademário Cavalcanti — hoje de “férias” forçadas — publicado quando o jornal fez
45 e republicado na revista do cinqüentenário:
“(O JP) adotou uma linha editorial de combate a
Victorino Freire .... sem no entanto negar espaço para suas defesas. Essa linha
anti-Victorino atravessou os anos 60, quando Sarney se lançou candidato a
governador. O JP abraçou sua candidatura a governador...”.
Mas há também imprecisões nesse texto, certamente por
influência dos sentimentos da direção geral. Ao tratar do processo de Sarney contra
Bogéa, omite-se a participação do deputado Domingos de Freitas Diniz, dando a entender
que Bogéa teria sido processado por alguma reportagem ou editorial do próprio
JP:
“Nos anos 60, Sarney governador, o Jornal Pequeno abriu as comportas contra seus métodos políticos e administrativos, foi processado
e, por pouco, livrou-se de ser fechado e o seu diretor-fundador preso. Somente
se salvou pela argumentação de Ribamar Bogéa e pela defesa do então deputado
federal Henrique de La Rocque...”.
Salvou-se, antes de tudo, porque Freitas Diniz assumiu
a integral responsabilidade pelo texto incriminado e o Supremo Tribunal Federal
entendeu corretamente — para vergonha de facciosos magistrados do Tribunal de
Justiça do Maranhão — que Bogéa e o JP não podiam ser castigados pelo artigo do
parlamentar. Vale registrar que no início do processo a situação era diferente:
deputados ainda eram invioláveis por opinião (prerrogativa que o AI-5 lhes tomaria),
recaindo sobre os editores a responsabilidade penal pelos “crime de imprensa”
que eventualmente cometessem.
Esse artigo de Ademário, datado de 29/5/96, três
semanas após a morte de Ribamar Bogéa, ao omitir a participação essencial de
Freitas Diniz no episódio, não o fez certamente por vontade própria, mas sim
para atender à moda da casa. Há anos o jornal reescrevia a história, de modo a
eliminar o protagonismo do deputado e atribuir-se um “oposicionismo” que na
verdade fora conseqüência e não causa da briga. Tanto assim que, cinco antes,
em 1991, Diniz escrevera sobre “Os 40 anos do Jornal Pequeno” não no JP,
onde seu implacável anti-sarneísmo era visto com reservas, mas sim no Imparcial,
que aceitou de bom grado a matéria paga.
Correto neste artigo, entre muitas outras passagens, é
o elogio a duas características do antigo JP: o honesto respeito objetivo aos
fatos (que não é nenhuma quimera, a despeito de certo filosofismo barato que
tenta justificar toda sorte de falsificação e mercantilismo) e a abertura à
controvérsia.
“O Jornal Pequeno, com sua linha apartidária,
rápido conquistou a confiança dos leitores. Uma nota desagradava às Oposições
Coligadas, outra aos aliados de Victorino e a Eugênio de Barros [governador
eleito em 1950]. Abrigava articulistas dos dois lados .... não se atrelava a ninguém
.... Não procurava distorcer os fatos...”
Faltou acrescentar apenas que essa quase
“neutralidade” em parte decorria da “simplicidade” do próprio Bogéa, que se
guiava muito mais por instinto que por qualquer consciência crítica, e que de
fato nunca teve opinião formada sobre a maioria dos temas que balizam o debate
político. Tinha, isto sim, a forte convicção de que nenhuma força exterior
tinha o direito de lhe interditar a vontade, quando decidia publicar alguma
coisa. Neste sentido, favoreceu a liberdade de expressão como nenhum outro,
naqueles tempos, inobstante aquela “simplicidade” descambasse muitas vezes para
o sensacionalismo, o desrespeito à intimidade e à dignidade humanas, o mau
costume de nunca reconhecer que errou (muito praticado até hoje na imprensa
maranhense), a difamação sem limites e a injúria grosseira.
Nem o Papa escapou da piada
Dois exemplos: certa vez um magistrado agonizava e o
JP, por engano, noticiou-lhe a morte. Bogéa não quis corrigir a barriga (o antifuro, na gíria dos jornalistas). Dias depois, quando o desembargador
realmente faleceu, o JP deu um título assim: “Até que enfim morreu...” Ainda
mais grotesca foi a manchete com que a edição de 14/5/1981 noticiou o atentado
ao papa João Paulo II em Roma: “Entupiram o papa de bala no seu carango”. (Na
véspera dos 50 anos, num jantar, o jornalista José Machado, prata da casa do
JP, contou o episódio às gargalhadas para um convidado especial, o jornalista
Bernardo Ajzenberg, da Folha de S.Paulo, sem atentar para o misto de
perplexidade e indignação nas exclamações do visitante.
A revista dos 50 anos parece ter sido cuidadosamente
planejada para evitar problemas — com a família Sarney e com os leitores. Como
a aproximação com Roseana e Jorge Murad apenas começava, optou-se por simplesmente
colecionar textos antigos do jornal, em vez de produzir também textos novos,
como seria natural. Assim o JP evitava tomar posição na conjuntura presente, deixando
tudo por conta do passado.
Mesmo isso não pareceu suficiente. Era preciso
reescrever o passado para melhor facilitar a transição para o futuro que se
avizinhava e negociava. Assim, a “antologia” não recolheu nenhum dos inúmeros
editoriais que Ribamar Bogéa escreveu contra Sarney. Matérias irrelevantes ou
até mesmo medíocres foram destacadas, porém nenhuma que denunciasse ou
criticasse o ex-presidente — como tantas vezes ocorrera enquanto o fundador
vivia. O mais perto que disso chegou foi na transcrição de uma entrevista quase
amena do velho Bogéa acerca de sua briga com Sarney. Fora daí, apenas um artigo
de terceiro com críticas superficiais ao senador e uma notinha debochada assinada
com pseudônimo. Tudo tendente a demonstrar que o litígio entre Bogéa fora pouco
mais que um mal-entendido que já estava na hora de superar.
O arremate de tudo isso, de uma seleção de “melhores
momentos” que às vezes faz indagar sobre os piores, não está no fim da revista,
mas no começo. Uma longa introdução sobre o “meio século de vida e
resistência”, na qual se fala até do pioneirismo de Bogéa na publicação do
“plantão de farmácias”, mas não se diz uma palavra sobre o combate a Sarney e
ao sarneísmo. Segundo esse texto, a “importância histórica” de Bogéa se deve a
“cinco fatores”: o primeiro foi ele ter criado inicialmente um jornal de
esportes como “plano piloto” do JP, embora não fique bem claro o que isso
significa; o segundo, a linguagem popular que adotou; o terceiro, a família que
construiu; o quarto, os filhos que treinou para sucedê-lo; o quinto, enfim,
porque o JP, naqueles 50 anos, “esteve presente em todos os acontecimentos que
marcaram a história do Maranhão, desde a morte de Satu Belo no começo dos anos
50” — e daí não consegue passar. A história do JP, resenhada em 1991, termina
em 1951. O texto é assinado por Alberico Carneiro, porque o editor, Lourival
Bogéa, este não pôs uma linha na revista.
Roseana Sarney foi a estrela da festa do JP no Espaço Renascença.
Rodeada e homenageada pelos donos da casa, ouviu uma única voz dissidente. O
pastor Eduardo Bogéa, residente nos Estados Unidos, sentiu o clima esquisito e
encheu a voz na advertência ao microfone:
— O coração do Bogéa é a alma do Jornal Pequeno.
Modernizem, atualizem, prosperem, mas não mexam no coração do Bogéa!
A verdade é o que menos importa
Jornais
em guerra eleitoral deturpam pesquisa do Ibope no MA
A “guerra midiática” em torno da recente pesquisa do
Ibope no Maranhão mostra mais uma vez que o Sistema Mirante de Comunicação —
tão justa e frequentemente acusado de sectarismo e manipulação de informações —
não é o único nem o mais agressivo nessa prática adversa aos interesses da
cidadania. Até jornais que no passado conseguiam conciliar governismo com um mínimo
de sobriedade, como O Imparcial, agora mergulham de cabeça em ousadias
que não resistem à análise crítica.
Para ficar somente na mídia impressa, tudo começou com
a seguinte manchete d’O Estado do Maranhão de 16/7: “Ibope: Senadora tem
o dobro das intenções de voto dos demais candidatos ao Governo. Roseana tem 66%
e vence no primeiro turno, diz pesquisa”.
Correto? Não, por vários motivos. O primeiro é um
errinho simples de apontar e certamente involuntário. A pesquisa não diz nem poderia
dizer que Roseana “vence no 1o turno”, já que se trata de “intenção”, não
de adivinhação de voto. Mas isto não é o pior.
Logo abaixo da manchete, um amplo quadro colorido
informa: “Números da pesquisa — votos válidos: Roseana Sarney (PFL) 66%; Jackson
Lago (PDT) 24%; Edson Vidigal (PSB) 5%; João Bentivi (Prona) 1%; Marcos Silva
(PSTU) 1%; Ribamar Pedrosa (PCO) 1%; Antônio Aragão (PTC) e Saturnino Moreira
(PSOL), zero.
Votos válidos, como se sabe, são aqueles dados aos
candidatos registrados. A Justiça Eleitoral apura também os votos nulos e os
votos em branco, mas divulga os resultados oficiais, tanto no primeiro, quanto
no eventual segundo turno das eleições, considerando apenas os percentuais
obtidos pelos candidatos — isto é, os votos válidos. Dito isso, é certo
apresentar uma pesquisa considerando apenas os votos válidos? Sim, desde que
todos os pesquisados declarem a intenção de votar num determinado candidato ou
de votar nulo ou branco, o que é praticamente impossível de ocorrer, ainda mais
faltando ainda 60 dias para a eleição.
Jornal
invalida o que quer — Na página 3 da edição, o EMA informa
que “Quando estão tabulados os votos nulos, brancos e dos entrevistados que não
revelam em quem vão votar, a candidata do PFL aparece com 60% de preferência,
deixando Jackson Lago com 21%, Vidigal com 5%, Marcos Silva, Ribamar Pedrosa,
João Bentivi e Aderson Lago com 1%. Brancos e nulos somam 6% e 3% dos
eleitores não revelaram de que forma vão votar”.
Grifei as últimas palavras para assinalar o erro do EMA.
Voto calado, voto que não se revela, não é o mesmo que voto “inválido”. Nem
mesmo seria possível anunciar os “votos válidos” incluindo aqueles 3%, pois
quem não abre seu voto, este tanto pode ter a intenção de votar válido, quanto
inválido. É por isso que o Ibope e outros institutos divulgam suas pesquisas
incluindo nulos, brancos e “não sabe/não opinou” (doravante NBN/N). Confira em www.ibope.com.br.
O próprio EMA, contraditoriamente, quatro dias
depois, na edição de 20/7, seguiu o padrão normal, ao divulgar na primeira
página que Lula tem 71% das intenções de voto no Maranhão, numa tabulação em
que há 6% de NBN/N. Na página interna, porém, a matéria também especula sobre
“votos válidos”, com o mesmo erro básico da outra.
Com alguma generosidade é possível acreditar que o
jornal da família Sarney tenha errado apenas por excesso de entusiasmo, já que
a consideração dos NBN/N não mudava a posição de Roseana em face dos
adversários. Com os 60% da pesquisa verdadeira, Roseana continua na situação
anunciada de ter o dobro da soma dos outros oito candidatos (30%). De mais a
mais, até agora ninguém havia contestado objetivamente o conceito de “voto válido”
adotado pelo EMA — eu próprio não percebi imediatamente a distorção. Mas
também é possível suspeitar de manipulação deliberada, como veremos adiante.
Já no caso do Imparcial e do Jornal Pequeno é
quase incogitável a hipótese de mero descuido ou entusiasmo eleitoreiro, salvo
no caso de desvario. A análise do que fez o Imparcial vale também para o
JP, visto que praticamente escreveram as mesmas coisas (e às vezes com textos
bem parecidos...).
Inicialmente o matutino governista reagiu ao Ibope com
a velha tolice de que a pesquisa “verdadeira” é a pesquisa espontânea, não a
induzida. Espontânea é a pesquisa em que apenas lhe perguntam em quem quer
votar. Quanto mais longe não só da eleição, mas também do registro das
candidaturas — como observou o jornalista Roberto Kennard, do Diário da
Manhã — maior é o interesse que as espontâneas podem ter. Registradas as
candidaturas, sua importância cai a muito pouco, quase nada. Interessa aí
somente a pesquisa induzida, aquela na qual o pesquisador mostra os nomes dos
candidatos ao eleitor.
Manchete
estragada — Os números da pesquisa espontânea, divulgados
no Imparcial de 19/7, são os seguintes:
Roseana — 21%; Jackson — 5%; Vidigal — 2%. Não
sabe/não opinou, 59%; branco e nulo — 9%; José Reinaldo — 1%; candidatos com menos
de 1% — 2%. A soma, aí, não chega a 100, pára em 99%, mas os “arredondamentos”
decerto bastam para explicá-lo). Também aí Roseana tem mais que o dobro dos
demais candidatos registrados (21% contra 9%), mas isso, como já foi dito, não
significaria quase nada, se não fosse confirmado pela pesquisa induzida. O Imparcial,
entretanto, resolveu extrair desses números uma conclusão absolutamente
delirante.
O jornal dirigido por Pedro Freire tinha uma verdade
interessante para contar na edição de 19/7. A de que Roseana, apesar da larga
vantagem sobre os concorrentes, já esteve melhor. Em dezembro do ano passado,
tinha 65% das intenções de voto (na pesquisa induzida, evidentemente), caindo
agora para 60%. Jackson, no período, passou de 15% para 22%, subindo 7 pontos
percentuais. Possivelmente foi isso que o Sistema Mirante quis ofuscar com a
fantasia dos supostos “votos válidos”, de modo que Roseana parecesse estar
aumentando, em vez de diminuindo.
Sem compreender o truque — supondo-se que tenha sido
um truque — O Imparcial estragou a manchete acrescentando uma mentira
cavalar. Esta: “Ibope diz que indecisos chegam a 68%.”.
Para anunciar esse disparate o jornal considerou como
“indecisos” todos aqueles que, na pesquisa espontânea (aquela que a esta altura
não vale nada), não declararam voto em candidato registrado — com uma única e
arbitrária exceção.
Começou pelos 59% que não quiseram responder ou
disseram ainda não ter candidato, embora O Imparcial não possa adivinhar
quantos estão no primeiro caso (não sabe) e quantos no segundo (não opinou, não
respondeu). Não satisfeito, chegou aos 68% jogando na panela os 9% que na
espontânea declararam a intenção de votar nulo ou branco. Como se zanga,
desgosto ou indiferença fosse o mesmo que indecisão. Curiosamente, num ato de
homenagem reverencial, considerou “decidido” e válido aquele 1% que declarou
votar no não-candidato Zé Reinaldo.
E o leitor que se vire com tanta desinformação.
O Ibope também erra
Dois leitores do Colunão, o professor Wilson
Barros e o jornalista e publicitário Daniel Mendes contribuíram com interessantes
esclarecimentos sobre as pesquisas do Ibope. Leia no Blogue do WR (http://walter.rodrigues.zip.net).
Abaixo, resenha de um texto de Wilson Barros:
“O Ibope informa incorretamente uma margem de erro de
3% na sua pesquisa. Não existe margem de erro de pesquisa, e sim de candidato
pesquisado. Essa margem de 3% é estimada antes da pesquisa, para uma
probabilidade de 95%. Serve para estabelecer o tamanho da amostra, ou seja:
quantas entrevista farei para que a margem de erro de um candidato dê no
máximo 3%? Até porque, como já assinalou o jornalista Daniel Mendes, ela
não tem sentido para quem tem menos de 3%, pois este, então, “ficaria devendo
voto na praça”.
O máximo só se verifica para o candidato que tiver 50%
das indicações de voto. O cálculo é simples: 1,96 vezes a raiz quadrada de 0,5
ao quadrado, dividido pelo tamanho da amostra, que no caso do atual Ibope foi
de 812. O que nos mostra outro erro: a margem de erro pré-estimada não foi de
3%, e sim de 3,43%. É só pegar o lápis e calcular. Para a margem de 3%, o
Ibope teria que fazer 1000 entrevistas.
Após a pesquisa, as margens de erro dos candidatos são
facilmente calculadas pela fórmula citada. A de Roseana, por exemplo, é de
3,37%. A de Jackson, 2,85%. A de Vidigal, 1,49%. De onde decorre que o mais
correto seria dizer, por exemplo, que Vidigal tem ‘entre 3,51% e 6,49%’, e não
5%.”
Dois maranhenses no fogo
Deputado
Ribamar Alves não está só no escândalo das sanguessugas
Ao contrário do que informa O Estado do Maranhão na edição de 19/7, Ribamar Alves, do PSB, não é o único deputado da bancada
maranhense enrolado no escândalo das “sanguessugas”, a máfia de parlamentares,
prefeitos e fornecedores acumpliciados para embolsar o dinheiro federal
destinado à aquisição de ambulâncias para atender a cidades do interior do
país.
Alves, ex-candidato a prefeito de Santa Inês (MA),
está na lista dos primeiros 57 implicados divulgada pela CPI das Sanguessugas.
Mas seu colega de bancada Remi Trinta (PL), que não figura na lista, também
teve seu nome citado em investigações da Polícia Federal e da CPI.
Na última sexta-feira, a CPI informou que há mais de
outros tantos deputados com graves suspeitas de participação no escândalo. A
diferença é que estes últimos receberam a propina em dinheiro vivo, ao passo que
o “grupo dos 57” autorizou que ele fosse depositado em suas próprias contas ou
nas contas de parentes e assessores. Mas a expectativa da CPI é que os
depoimentos colhidos pela PF permitam rastrear os pagamentos em dinheiro e
comprovar o envolvimento de todos.
Ribamar Alves era conhecido como integrante da chamada
“bancada hospitalar”, até vender seu hospital em Santa Inês no governo José
Reinaldo. Remi Trinta ex-titular da esdrúxula secretaria de Medicina Preventiva,
criada especialmente para ele no governo Zé Reinaldo, já esteve anteriormente
envolvido em denúncia de desvio de verbas do SUS e até em racismo. No começo de
1999, ao destratar um comissário de bordo negro, foi agredido e preso em flagrante
pela PF no aeroporto de Belém.
NOTA: O deputado federal César Bandeira (PFL) também consta como provável
“sanguessuga” numa segunda lista divulgada pela CPI após a publicação desta
matéria na edição de papel do Colunão. O deputado Remi Trinta (PL),
citado numa gravação sigilosa autorizada pela Justiça, permanece como simples
suspeito.
Stédile
na ESG, um diálogo necessário
A
desobediência civil do MST segue a tradição dos abolicionistas
Um fato de grande relevância para a saúde
das instituições ocorreu no último dia 18, quando o coordenador nacional do MST (Movimento dos
Sem-Terra), João Pedro Stédile, falou por mais de duas horas sobre Reforma
Agrária e Meio Ambiente, a 100 estagiários da Escola Superior de Guerra (ESG),
no Rio, um dos “laboratórios” do golpe militar de 1964.
Ao
cabo da palestra e dos debates, o comandante da ESG, general João Benedito de
Barros Moreira, criticou a “burrice” das elites econômicas do país — em geral
inimigas da distribuição de renda e portanto da ampliação do mercado interno — e
adiantou que concorda com Stédile em “praticamente tudo”, menos em seus “métodos
de ação”. Se é só isso, o próprio Stédile e o MST podem também concordar com o
general, visto que ninguém pode “gostar” de promover ocupações e gerar
conflitos em que tão frequentemente se expõe a represálias violentas. Mas a
historia do Brasil mostra que as grandes transformações sociais, especialmente
as que implicam tomar poder e dinheiro às classes dominantes, não dispensam a
atuação de amplos movimentos de desobediência civil.
Embora
a maioria das escolas não nos ensine assim, a verdade é que o ato corajoso da
princesa Isabel em favor dos escravos foi precedido de revoltas e fugas em
massa e da “insubordinação” de militares que se recusaram ao papel de “capitães
do mato” — que muitos deles exerceram. Tudo isso inviabilizou de tal modo a
permanência da escravatura, por mais “legal” que fosse, de tal modo que quando
a princesa assinou a Abolição, somente uns poucos ainda achavam possível
prolongá-la por muito tempo. A maioria, quando não a desejava, pelo menos a
reconhecia como inevitável.
O
que se discutia, e muito, era se os libertos deviam ser ajudados com a oferta
de lotes de terra e modestas subvenções estatais, ou se, pelo contrário, a
elite escravagista é que merecia indenização pela perda patrimonial.
Princesa libertária — Documentos recém-publicados (Nossa História, n.31, maio de 2006) mostram que Izabel pretendia atender ao partido dos
ex-escravos. Seus planos foram arquivados pelo golpe militar republicano de 15
de novembro de 1889.
A
importância de falar aos militares sobre a necessidade de aprofundar a reforma
agrária não está em que devam ser convocados para impô-las ao baronato civil
reacionário. Não é necessário, assim como não foram eles que libertaram os
escravos, e até se lhes pode debitar a vergonha de não terem distribuído as
terras e o mínimo de indenização que aos negros teria permitido recomeçar a
vida em melhores condições. Basta que não se permitam utilizar como capitães do
mato contra os movimentos sociais e que, como cidadãos, nos estritos limites
constitucionais, reclamem dos métodos, se assim desejam, mas reconheçam a urgência
e a justiça dos objetivos. Sobretudo quando o sangue que escorre, seja na
ponte do Tocantins, seja em Corumbiara, seja em Eldorado de Carajás, não é o
dos latifundiários amantes da ordem injusta, mas sim o dos que querem mudar
este mundo para melhor.
No
mesmo encontro com Stédile, o general Barros explanou acerca do agravamento do
conflito no Oriente Médio, demonstrando exata compreensão do que ali ocorre.
Ele disse que o massacre dos palestinos na Faixa de Gaza e os terríveis bombardeios
de Israel no Líbano - que não somente liquidam civis à vista como tratam de
matá-los a prazo, pela metódica destruição da infra-estruturado país - são
acontecimentos incompreensíveis sem referência ao imperialismo dos Estados.
Israel só faz o que faz, disse, porque tem a cobertura econômica, diplomática e
militar de Washington.
Eis
aí, certamente, mais um ponto em que o general e o líder do MST certamente
estão de acordo. E o que acontece no Oriente Médio pode amanhã ocorrer aqui,
tendo em vista a crescente infiltração militar dos EUA na Amazônia (Colômbia e Equador,
sobretudo), as descabidas ameaças à Venezuela e a presença de tropas imperialistas
no Paraguai, onde já começam a entrar em conflito com as organizações camponesas
locais. É um quadro da maior gravidade, que inquieta tanto aos civis quanto aos
militares não-submissos da América do Sul.
PARALELAS
Gatos e ratos
A Cemar divulgou na imprensa que as ligações ou
derivações clandestinas lhe dão prejuízo de R$ 100 milhões, e ao Estado de R$
25 milhões, em ICMS não arrecadado. No Imparcial, a matéria destaca que
essa prática “é crime e dá cadeia”. Dá nada. Nunca deu, pelo menos no Maranhão.
Além do mais a matéria mistura o caso de quem “puxa a
energia” da rua porque a Cemar não lhe presta esse serviço, com a de quem mete
um “gato” para reduzir o registro do consumo.
Pior ainda é que deixa de ao menos mencionar — não por
vontade do repórter, está claro — o caso mais famoso de acusação de
“eletrogato”, ocorrido na campanha eleitoral de 2004.
Vergonha
Informação do coordenador do grupo maranhense Gayvota:
Dos doze assassinatos de homossexual ocorridos em São
Luís de 2000 a 2005, média de dois por ano, o único solucionado foi o que teve
como vítima o filho de um desembargador.
Eis aí um bom tema para o controle externo da Polícia
e da Justiça, bem como para a OAB-MA e para a Sociedade Maranhense de Direitos
Humanos.
Proteção seletiva
Projeto de Roseana Sarney recém-aprovado pela Comissão
de Assuntos Sociais do Senado estabelece que os infectados pelo HIV ou pelo HCV
não poderão ser demitidos sem justa causa.
Nada contra, mas por que somente as vítimas da AIDS e
da hepatite C, e não também os cancerosos e outros portadores de moléstias
graves?
Saiu de fininho
O diretório regional do PT desistiu de levar adiante a
lorota de que seria “falsa” a assinatura de Lula na mensagem de simpatia que o
presidente dirigiu a Roseana a propósito de recente convenção do PFL.
Atitude correta e prudente, tanto mais que essa graça
pegou muito mal em Brasília, agravando o desprestígio da sessão estadual.
Mas o certo mesmo, depois de embarcar tolamente nesse
factóide juvenil, seria o partido dizer claramente que se enganou, e fim.
Data vênia
D’O Estado do Maranhão de 13/7/06, primeira
página: “Venda de gás diminui devido ao preço caro”.
Caro ou barato é o gás, não o preço. O preço é alto ou
baixo, justo ou injusto, maior ou menor.
Família desunida
O empresário Eduardo Lago tem dois primos concorrendo
ao Governo do Estado, Jackson Lago (PDT) e Aderson Lago (PSDB), que também são
primos entre si. Outros dois primos de Eduardo, irmãos de Jackson, Wagner Lago
(PDT) e Zé Luiz Lago (PPS), são candidatos a deputado federal. Um terceiro,
Bete Lago, mete a cara a estadual.
Eduardo, que é casado com uma irmã de Jorge e Ricardo
Murad, vota em Roseana e noutros candidatos da coligação sarneísta. O último
Lago em que ele votou foi Jurandir Lago, vice na chapa de Zé Reinaldo em 2002.
Que não é parente.
Metamorfose
Quando Aderson Lago despertou certa manhã de um sono
agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de
laranja.
Em tucanês...
Não é laranja. É “candidato auxiliar”.
Montado na grana
Esta edição fechou sem que se soubesse o valor dos
bens de Roseana (embora seja provável que a imprensa diária consiga divulgá-lo
neste fim de semana). Em geral, dá-se como certo que a filha de Sarney tem o
maior patrimônio dentre os atuais candidatos ao Governo do Maranhão. Enquanto a
prova não chega, o campeão é o ex-presidente da Caema, Aderson Lago (PSB),
cujas posses quase igualam a dos três que lhe chegam mais perto. Compare:
Bentivi (Prona): R$ 650 mil;
Jackson (PDT): R$ 407 mil
Vidigal (PSB): R$ 402 mil.
Bentivi + Jackson + Vidigal: R$ 1,459 milhão.
Aderson: R$ 1,334 milhão
E isso porque ele só compra o que está bem baratinho,
incluindo avião e apartamento pechincha de R$ 200 mil e pouco no Leblon.
Fortuna de Fecury
Dos atuais candidatos, ninguém bate em fortuna o
empresário Clóvis Fecury, que deseja renovar seu mandato de deputado federal.
Filho do senador suplente e ex-prefeito Mauro Fecury e dono da faculdade
privada UniCeuma, seu patrimônio declarado bate em R$ 5 milhões. Só um apartamento
nos EUA vale R$ 1 milhão.
Sócio adverso
Vidigal ainda tem cotas — poucas — da Gráfica Escolar
Ltda, editora do jornal O Estado do Maranhão. Está na declaração de bens
dele.
Tucanaria geral
Zé Reinaldo está com Lula, mas os jornais que só
enxergam excelsas virtudes no governo dele — Imparcial e JP — estão com
Alckmin.
Seminário menor
Do veterano Jurivê Macedo, n’O Estado do Maranhão,
usando o seu “latim lá do seminário”, conforme explicou, para comentar
declaração pró-Lula de Fernando Collor: “Similia similiabus curantur”. O que,
segundo o colunista, “numa tradução curta e grossa”, significaria “os iguais se
procuram”.
Talvez não seja grossa, mas com certeza é uma tradução
distraída. A frase significa “o semelhante cura o semelhante”. Provém da Antiguidade
clássica e serve de lema aos homeopatas desde o século 19. Não tem nada a ver
com os “iguais se procuram” ou “os opostos se atraem”.
Deve ter sido por isso que o brilhante colunista de
Imperatriz não virou padre...
Data vênia
D’O Estado do Maranhão de 13/7/06, primeira
página: “Venda de gás diminui devido ao preço caro”.
Caro ou barato é o gás, não o preço. O preço é alto ou
baixo, justo ou injusto, maior ou menor.
Otimismo inabalável
Com seus 5% no Ibope (contra 24 de Jackson e 66 de
Roseana), Vidigal não perde o otimismo. Ele acha que neste começo de campanha o
mais importante não é a pesquisa dita “estimulada”, aquela na qual o eleitor
eleitor declara o voto olhando os nomes dos candidatos, e sim a pesquisa
“espontânea”.
Na espontânea, o pesquisado responde sem que lhe digam
quem é candidato, do que resulta um percentual muito maior de “não sei” e “não
tenho candidato”.
“A campanha ainda mal começou, e 5% na estimulada é
até animador”, disse o ex-magistrado. “Agora, quem está por cima só tende a cair”.
Tucano saliente
Dia desses, num ato público, o candidato a senador
João Castelo (PSDB) zangou-se feio com Flávio Dino (PCdoB), só porque o
ex-magistrado ousou criticar as tucanagens de FHC, o presidente que vendeu a
Vale do Rio Doce e o sistema Telebrás na bacia das almas.
Mentindo Flávio não estava.
Casa de enforcado
Lourival Peta Bogéa, diretor-geral do Jornal
Pequeno, deu agora para publicar insinuações que desinquietam a própria
filha, moça direita e firme, com todo o direito de viver a própria vida.
De mais a mais, ainda vale o bom conselho: “Macaco,
olha o teu rabo”.
DIÁLOGO
Seção reservada a artigos, cartas e outras manifestações
alheias, selecionadas, tituladas e, se necessário, condensadas pelo Editor. É preferível
que os originais não ultrapassem 30 linhas e tragam nome, endereço, profissão e
telefone dos autores. Aos identificá-los, o Editor poderá acrescentar outros dados
pertinentes. Têm preferência na publicação os “direitos de resposta” e outros textos
alusivos a matérias do semanário. Respostas a outros jornais serão examinadas ara
eventual publicação, desde que ignoradas pelos destinatários. Em tais casos, o Colunão ouvirá os respectivos editores sobre o motivo da recusa, dando ciência aos leitores
do resultado da consulta.
A verdade escondida em Carajás
Guilherme Zagallo,
advogado,
coordenador do movimento Reaje São Luís
O Colunão de 18/6/06 publicou nota de nossa
autoria com informações incorretas sobre as reservas de minério de ferro da
província mineral de Carajás. Registramos no Colunão no 6 a preocupação com o volume das reservas
de minério de ferro divulgadas pela Companhia Vale do Rio Doce, que atenderiam
pouco mais de 20 anos de operação no volume atualmente praticado de exportação
anual de 100 milhões de toneladas de minério.
Fomos alertados pelo jornalista Lúcio Flávio
Pinto que os volumes corretos das reservas de minério de ferro são muito
superiores. Consultando fontes independentes, como o geólogo Breno Augusto dos
Santos, integrante da equipe da US Steel que em 1967 descobriu a província
mineral de Carajás (*), verifica-se que o volume real das reservas de Carajás é
da ordem de 18 bilhões de toneladas de minério de ferro (ano base 2002), e não
de 2,1 bilhões de toneladas, como informa a Companhia Vale do Rio Doce à
Securities and Exchanges Comission -SEC (Comissão de Valores Mobiliários norte-americana)
em junho/2006.
Esta confusão vem desde a época da privatização,
em que os recursos minerais da Companhia Vale do Rio Doce foram subavaliados. O
edital de privatização da Vale, de 6/3/1997, afirmava que “o Sistema
Norte tem reservas provadas e prováveis de minério de ferro estimadas em
aproximadamente 1,8 bilhões de toneladas, em Carajás, no Estado do Pará
(representando uma vida útil da mina de 34 anos, aproximadamente, nos níveis
atuais de produção), e outros depósitos de minério de ferro, próximas a
Carajás, estimados em aproximadamente 15,4 bilhões de toneladas".
Para efeito de cálculo do preço das ações da empresa
no processo de privatização foram consideradas apenas as reservas provadas e
prováveis de 1,8 bilhões de toneladas.
No entanto, a própria CVRD havia informado, em 8/5/95,
à Securities and Exchanges Comission (SEC) que as reservas lavráveis medidas e
indicadas de minério de ferro de Carajás eram da ordem de 4,97 bilhões de
toneladas. Este valor foi reduzido em 28/6/96 para 1,8 bilhões de toneladas,
quando já havia sido iniciado do processo de privatização da empresa.
Assim, a falta de transparência da Vale acerca do
volume das reservas na verdade esconde a questão do preço de venda da
empresa no leilão de privatização, que está sendo discutido na Justiça
(vide, por exemplo, acórdão no processo 199739000055300 do TRF da 1a Região, disponível para consulta no endereço arquivo.trf1.gov.br). Nestes processos, autores populares e o
Ministério Público Federal pedem que o preço de venda da Vale seja reavaliado,
com a possibilidade de pagamento das diferenças entre o valor pago e o valor
real da empresa, se considerados todos os direitos minerários conhecidos à
época da privatização.
Como não interessa à Vale discutir o volume de suas
reservas minerais, a sociedade maranhense e paraense se vê privada de
discutir o que ocorrerá quando estes recursos não renováveis se esgotarem.
—————————————————
(*) A USS
juntou-se posteriormente à Vale na Amza (Amazônia Mineração S/A), empresa constituída
para exploração do ferro de Carajás. O consórcio adiante se desfez, quando a
Vale adquiriu a metade das ações pertencente ao sócio norte-americano.
Mulheres na Ciência
Freitas Diniz
engenheiro
No ano passado, o
ex-presidente (reitor) da Universidade de Harvard (EUA), Larry Summers,
levantou uma polêmica internacional sobre a diferença natural entre homens e
mulheres, como causa da pequena contribuição das mulheres às lógicas, às
matemáticas e à ciência.
Na semana
passada, o neurobiólogo Ben Barres, da Universidade de Stanford, com doutorado
em Harvard, “ataca o machismo em estudos cognitivos” e “nega que haja menos
mulheres cientistas e matemáticas por razões biológicas.”
Diz a Folha de
S.Paulo de 13/7/2006 que o que mais dá crédito a Ben Bares “na discussão
sobre a diferença entre homens e mulheres é que, ao longo da maior parte de sua
acadêmica, ele foi conhecido como doutora Bárbara. Em 1997, trocou de sexo ao
iniciar um tratamento com hormônios.” Barres é um transexual.
Com relação às
lógicas e matemáticas, temos exemplos que corroboram o ponto de vista de
Barres, na discussão da tese.
A lógica que
adotamos comumente em nossos raciocínios e argumentos é fundamentada nos
princípios aristotélicos da não contradição — “uma proposição não pode ser
verdadeira e falsa ao mesmo tempo” — e do terceiro excluído — “toda proposição
ou é verdadeira ou falsa, isto é, verifica-se sempre um destes casos, e nunca
um terceiro”. É uma lógica consistente, porque não contém contradição, e bivalente
porque só admite dois valores lógicos.
Por outro lado,
existem as lógicas paraconsistentes, que admitem contradição, as lógicas
polivalentes ou paracompletas que derrogam o princípio do terceiro excluído e
as lógicas não-reflexivas, inclusive a do físico notável Schrondiger, que
derrogam o princípio de identidade ou princípio reflexivo da igualdade — “todo
objeto é idêntico a si mesmo”.
Perguntando por
telefone ao matemático brasileiro Newton da Costa, único do mundo que
formalizou integralmente a lógica para consistente e respectiva matemática,
sobre as aplicações da lógica paraconsistente, respondeu-me remetendo cópia de
um ensaio da brasileira Leila Zardo Purga.
Segundo Purga,
são aplicações filosóficas (na dialética, na filosofia da ciência, na filosofia
da lógica, na ontologia), lógico-matemáticas, científicas (na psicologia), no
direito (do ponto de vista teórico e prático), tecnológicas (na programação de
computadores, na inteligência artificial e conseqüentemente na robótica).
Tomamos também
conhecimento, recentemente, do uso da lógica paraconsistente em engenharia de
tráfego, nos transportes aéreos e terrestres (Scientific American Brasil,
novembro de 2004).
Portanto, a
engenharia poderá usar a lógica e a matemática paraconsistentes para calcular o
melhor tráfego sobre uma ponte, mas para calcular a sua estabilidade terá que
usar a lógica e a matemática consistentes, senão a ponte cai.
A lógica
trivalente é aplicada pela grega Fotini Markopoulo-Kalamara, numa matemática
difícil, a teoria matemática dos topos, fulcro das teorias unificadas dos
físicos e cosmólogos da atualidade.
Purga e
Markopoulo-Kalamara são exemplos notáveis de como as mulheres podem atuar e criar
nas lógicas, nas matemáticas e na ciência em geral.
Críticas a Cafeteira
Senhor jornalista — Dizia Henry Ford que “não é o
dinheiro que modifica o homem, ele apenas o desmascara”. Tal pensamento
enquadra-se no candidato Epitácio Afonso Pereira, ou simplesmente Cafeteira, um
paraibano que migrou para o Maranhão em tempos idos, um dia desapareceu de
surpresa e anos depois voltou para cá.
Naquela época já mostrava a esperteza que
aperfeiçoaria ao longo dos anos. Da carroceria de um velho caminhão transformado
em palanque, proclamava que “cada voto em Cafeteira” valia por “uma ripada na Onça”,
isto é, no governador Newton Bello, apelidado Cara de Onça pelo povo.
Após o que recebia os abraços e participava do grogue oferecido pela turma que
o acompanhava. Foi assim que se tornou muito popular e elegeu-se deputado
federal e depois prefeito da capital.
O acontecimento mais importante dessa fase foi ele ter
que se homiziar no próprio prédio da Prefeitura, devido ao governador Sarney
mandar a Polícia cercar a sede da administração municipal, com o objetivo de
prendê-lo. Em seguida deu-se o episódio em que Ivar Saldanha, disputando a Prefeitura
com Cafeteira, mostrou na TV os cheques sem fundo emitidos pelo concorrente e
ainda o acusou de vender passagens aéreas fornecidas pelo Congresso aos
deputados.
O aterro do Bacanga reativou novo desentendimento, com
acusações recíprocas. Depois veio o caso da morte de Reis Pacheco, a mando de
Cafeteira, segundo a imprensa sarneísta. Por último, a escandalosa revelação do
Granville, explorado em “dó maior” pelos menestréis da difamação, o mesmo bloco
liderado pelo senador. Questionamos, a respeito dessas irregularidades, por que
o senhor Cafeteira nunca propôs à Justiça qualquer ação contra tantas ofensas alardeadas
pelos seus delatores?
Apesar de todo esse tiroteio desferido pelos tutelados
do senador Sarney, agora vem Cafeteira oferecer seu apoio à Roseana. Por quê?
Na minha opinião, essa atitude de Cafeteira apenas
mostra que Henry Ford tinha razão.
WR — Publico esta carta por amor à controvérsia, mas discordo da personalização da
crítica. Pois o apoio de Cafeteira a Roseana não é menos surpreendente que o de
Roseana a Cafeteira, ou que a aliança Jackson/Roseana em 2000, ou Jackson/Castelo
atualmente, ou Lula/Sarney, ou Aderson (A farra é Grande) Lago com Zé
Reinaldo e tantas outras. Sem contar que a aliança de ex-inimigos não é menos
“chocante” que a briga de ex-amigos...
Caso Granville foi a exploração maliciosa e
político-eleitoral de um fato — uma remessa de cerca de US$ 1 milhão de São
Luís para o Rio —, não de uma ficção. Caso Reis Pacheco é um drama em dois atos
ou em dois crimes. Um foi o seqüestro e tortura do ferroviário, obra de pessoas
“próximas a Cafeteira”, ou pior. Outro, a denunciação caluniosa de homicídio,
contra Cafeteira, obra de pessoas “próximas a Sarney”, ou pior.
Não há registro histórico de que a Polícia tenha
cercado a sede Prefeitura, com ordens de prender o prefeito Cafeteira. O
prefeito armou-se preventivamente receando a cassação intentada na Câmara e até
uma possível intervenção estadual, mas nunca houve o cerco policial, nem a ordem
de prisão referidos pelo leitor.
Ao exibir os cheques, naqueles idos de 1965, Ivar Saldanha
usou grosseiro mas legítimo recurso de campanha. Esclarecido pelas explicações
de Cafeteira, o eleitorado admitiu corretamente que a emissão de cheques sem
fundo não é necessariamente um ato desonesto. Na maioria das vezes decorre de
engano ou de expectativa frustrada. Muito mais generosos foram os eleitores que
perdoaram o “eletrogato” flagrado na residência e numa fábrica do atual
prefeito de São Luís, Tadeu Palácio (PDT), mas também é direito deles. Se é que
todos sabiam da verdade, pois muitos mentiram a respeito.
O PSOL só faz confusão
Caro Walter — Gostaria de comentar carta do
companheiro e amigo Valdeny Barros (Colunão nova série no 8), na qual, por
sua vez, comenta opinião do poeta Zeca Baleiro e sua posição em apoio a Lula.
Não li a análise do poeta por isso me aterei unicamente ao que indica Valdeny.
Primeiro o poeta é criticado por atacar “Alckmin
naquilo em que este é mais parecido ao Governo Lula: os escândalos e a falta de
ética”. Parece ter o companheiro caído no conto midiático e direitista segundo
o qual o dito “mensalão” foi o “maior escândalo de todos os tempos”, dando como
fato consumado aquilo que, mesmo depois de tanta investigação e cobertura
ampliada da grande mídia, deixou dúvidas graves como, por exemplo:. que sentido
faz deputados petistas figurarem como mensaleiros, já que estes já votam com o
Governo? Esqueceu-se Valdeny do elenco (e não um ou outro) de escândalos
do governo tucano — compra de votos da reeleição, Sivam, a farra do Proer, o
caso Marka/FonteCindam, os rombos na Sudam e Sudene, pasta cor-de-rosa,
acidentes na Petrobras, apagão etc, sem termos de comparação com o atual
governo, tanto em número de escândalos quanto em volume de dinheiro envolvido (R$
100 bilhões só na privataria).
Valdeny esquece da diferença que há entre
“corrupção no Governo” e “Governo corrupto”. Pode haver corrupção nos
melhores governos, o que é bem diferente de um governo cujo modo de operar ou
essência seja a corrupção, ou seja, um governo corrupto. No governo de Chávez,
por ex., os poucos casos são (tal qual aqui) fortemente explorados pela grande
mídia. Lá, segundo a imprensa, tem-se o pior governo que já existiu. É
impossível a um governo afundado em corrupção, e com baixo crescimento do
PIB como temos tido, aumentar o poder aquisitivo do salário mínimo,
quintuplicar a verba da agricultura familiar, fortalecer a máquina pública (com
ingresso de mais de 40.000 novos servidores), ampliar o ensino público superior
(com concursos públicos, reajustes salariais, mais bolsas de pesquisa, criação
de novas universidades, etc.), direcionar R$ 8 bilhões/ano para o Fome-Zero, e
criar mais de 1 milhão de empregos/ano, dentre outros avanços do governo Lula
-- como juros bem mais baixos (o que gerou em 1 ano, segundo a Folha de S.Paulo de 17/07/06, economia de R$ 78 bilhões).
O poeta é criticado por criticar o PL e ter
supostamente esquecido que este partido faz parte da base do governo. Ora, uma
coisa não impede a outra. Se bem me lembro, em 2002, o companheiro Valdeny (bem
como todo o atual PSOL), assim como eu, estávamos justamente criticando a
aliança com o PL, sem contudo deixar de apoiar Lula e o PT.
Valdeny comparou a fala do poeta ao “Eu tenho medo” de
Regina Duarte (2002). Sem comparação com o que a direita vem fazendo atualmente
quando tenta, p. ex., colar a imagem do PT à do PCC. Enquanto isso, a
mídia (a direita) vem inflando a candidatura do PSOL que, por sua vez,
fortalece a direita, ecoando o mesmo discurso moralista, com uma boa dose de
histeria e o sectarismo dos que consideram o governo Lula “neoliberal”,
restando mostrar quais as medidas neoliberais de Lula.
Não conseguimos ainda vislumbrar qualquer programa político
do PSOL para o Brasil. Só confusão. A mesma que leva a candidata Heloísa
Helena a disparar: “Nem Bush nem Chávez”! Vago assim, genérico
assim, resta-lhe apenas a postura sectária e histérica.
— João de Deus Castro, maranhense, petista e
servidor público residente em São Paulo. (jdeus17@hotmail.com).
Meu caro Walter — No nosso Maranhão de paixões políticas, ódios e
vaidades, a imaginação fértil de alguns cria mitos e lendas que se transformam
em “verdade”, na maioria das vezes pela pouca importância que as vítimas dessas
calúnias dão aos seus algozes. O alvo mais freqüente é o ex-presidente José
Sarney, cujo prestígio nacional e internacional dispensam comentários.
Não
posso calar-me, entretanto, diante da distorção da História praticada
recentemente por um de seus leitores, quando diz que o ex-presidente,
encerrando o mandato, “saiu pelos fundos do Palácio da Alvorada”. Como você
sabe, quem saiu pelos fundos, não do Alvorada, que é residência dos
presidentes, mas sim do Palácio do Planalto, sede do Governo, foi o presidente
Fernando Collor, sucessor de Sarney. Após passar a faixa presidencial para seu
sucessor, a 1o de janeiro de 1990, Sarney desceu a rampa acompanhado de
familiares, amigos e colaboradores, entre eles o governador Epitácio Cafeteira.
Detalhe: aplaudídissimo, ao tirar do bolso um lenço branco para acenar à
multidão. Para quem se esqueceu, envio-lhe a foto do acontecimento. Um abraço,
— Eduardo Lago, São Luís (MA).
SENADINHO
Idéias
& toques sem muita formalidade
Cabeça de herói
Quando Zidane deu aquela cabeçada em Materazzi na
final da Copa, e acompanhei nas horas seguintes o seu quase linchamento pela
mídia internacional, lembrei-me imediatamente de Nelson Rodrigues, autor de À
sombra das chuteiras imortais, reunião de crônicas sobre futebol que não
canso de reler. Com certeza, no dia seguinte ele teria disparado algo como: “A
cabeçada de Zidane foi uma atitude épica. Só um comandante gaulês poderia ter
atingido um adversário com aquela magnitude! Foi um golpe digno de um Obelix!”.
Concordo plenamente. Já vi cotoveladas fulminantes,
bicudos na canela, tesouras voadoras, cuteladas, sola no joelho, cuspe na cara,
mordida na orelha, beliscão na bunda, puxões de cabelo, sucessivas camas de
gato .... mas uma cabeçada como aquela, nunquinha da silva! E mais: numa Copa
autenticamente de plástico, anódina, inodora, Copa excessivamente bem
comportada (com exceção do jogo Holanda e Portugal), de baixo nível técnico,
dominada pelo marketing e pelo interesse de patrocinadores, um dos únicos, se
não o único verdadeiro e humano homem em campo, foi o craque Zidane. O rei que
cuspiu no próprio mito e na idéia dos heróis perfeitos. Vocês imaginariam, por
exemplo, Ronaldo ou Roberto Carlos fazendo algo parecido? Jamais! Não têm
estatura para tanto. Que saudade de Nelson Rodrigues!
A imprensa é hipócrita ou conivente. Prefere se
lambuzar com o comportamento politicamente correto dos jogadores e acoberta os
bons mocinhos, os endinheirados muito bem patrocinados. Lembram de Pelé
agredindo com uma cotovelada o zagueiro Matosas, do Uruguai, na Copa de 70, num
lance sucessivamente repetido em especiais e vídeos, como exemplo de esperteza?.
Sim, Pelé foi esperto. Zidane foi humano. Pelé bateu e
ninguém viu. Zidane deu e todo mundo viu, principalmente depois que o telão do
estádio mostrou a repetição do lance. Zidane foi expulso pelo telão. Até
Tostão, o mais humano dos comentaristas, jogou pedra no craque francês,
retirando o voto que deu a ele como o melhor jogador da Copa. Ah, Tostão, você
que cita Drummond, Lispector, Pedro Nava, em seus artigos sobre futebol, que
diz compreender a complexidade da alma humana, vem agora querer exigir que
tenhamos em campo um Deus idealizado, um herói mítico. Desça do Olimpo. Estamos
na Terra, lugar de homens falhos, filhos de defeitos e virtudes.
Sim, a cabeçada de Zidane foi o ato mais verdadeiro
desta Copa medíocre, regida pelo poder dos vídeos, dos Gaviões Bovinos e dos
‘phenômenos’ de araque. Uma Copa em que nossa seleção mais parecia dopada pelo
avesso, passiva, apática, como um bando de atletas recém “bolados”, como se diz
na gíria dos malucos. Ave, Zidane! (Celso Borges, de S.Paulo).
.
LANCES DO BLOGUE
(http://walter.rodrigues.zip.net)
Justiça torta (30/6/2006) — A Comissão Pastoral da Terra (CPT) protesta contra a
decisão do SupremoTribunal Federal de liberar da cadeia o mandante do
assassinato de irmã Doroty Stang, a freira norte-americana liquidada por
defender os posseiros do interior do Pará:
“No dia de ontem, 29/06, a primeira turma do Supremo
Tribunal Federal, STF, contrariando todas as decisões das Instâncias
anteriores, mais próximas ao caso, concedeu hábeas corpus a Regivaldo Pereira
Galvão, empresário, preso, acusado de ser um dos mandantes do assassinato de
Ir. Dorothy Stang. Desta forma poderá aguardar em liberdade o julgamento. O
relator, ministro Cezar Peluso, em seu voto, considerou “a prisão preventiva
absolutamente ilegal”. Seu voto foi acompanhado pelos ministros Sepúlveda
Pertence e Marco Aurélio Melo. Votaram contra a concessão, os ministros Ricardo
Lewandowski e Carlos Ayres Brito.
A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra,
reunida em Goiânia, diante desta decisão que a deixou pasma, tem a dizer:
Não é nenhuma novidade a justiça conceder tal
benefício, sobretudo a quem dispõe de meios econômicos ou a quem ocupa posição
de destaque na sociedade. O mesmo STF concedeu o benefício da liberdade ao
coronel Mário Pantoja e ao major José Maria Oliveira, condenados
respectivamente a 228 e 158 anos de reclusão pelo massacre de Eldorado de Carajás.
A liberdade a este empresário que liderou o consórcio
para assassinar irmã Dorothy, como afirmou em juízo um dos executores, além de
ser uma afronta, é uma ameaça aos trabalhadores, lideranças e defensores dos
direitos humanos na região. Esta liberdade certamente será aproveitada para a
intimidação das testemunhas de acusação. Também não será nada difícil que
outras lideranças se tornem alvo de violências por parte deste grupo. Por outro
lado, esta liberdade poderá significar a impunidade, porque o empresário,
conhecido na Transamazônica como Taradão, tem condições econômicas mais que
suficientes para fugir da região e mesmo do País, para não se submeter ao
julgamento e conseqüente condenação, a exemplo do que aconteceu com os
fazendeiros Jerônimo Amorim, Adilson Laranjeira e Vantuir de Paula, mandantes
do assassinato dos sindicalistas Expedito Ribeiro e João Canuto, de Rio Maria,
também no Pará
O Estado do Pará tem uma história marcada pela
impunidade em relação aos crimes ocorridos no campo. A CPT do Pará entregou ao
presidente do Tribunal de Justiça do Estado uma relação de 774 assassinatos
ocorridos no Estado nos últimos 35 anos. Desse total, em cerca de 70% dos casos
não houve qualquer apuração sobre a responsabilidade pelos crimes. Não há um
mandante sequer desses crimes condenado e cumprindo pena atrás das grades. A
decisão do STF reforça esse estado de impunidade e contribui para a
continuidade da violência contra os que defendem a vida e a floresta amazônica.
A CPT mais uma vez afirma, o que já muitas vezes tem
dito. Há dois pesos e duas medidas no Judiciário brasileiro. O mesmo STF, que
concedeu hábeas corpus para Regivaldo, em dezembro de 2005 determinou o despejo
dos Guarani-Kaiowa da aldeia Ñande Ru Marangatu, no município João Antônio,
Mato Grosso do Sul, com a suspensão dos efeitos da homologação feita pelo
presidente da República da área tradicionalmente ocupada pelo povo
Kaiowá-Nãndeva, colocando mais de 500 índios à beira da estrada.
Para a justiça brasileira, comumente, a liberdade dos
trabalhadores, acusados por delitos, é sempre um perigo. Por que os 42
trabalhadores do MLST, presos por terem participado do ato na Câmara Federal,
não podem responder em liberdade ao processo e ainda se pede a prisão preventiva
de outros 73? Enquanto são concedidos os benefícios da lei para empresários e
pessoas de destaque, estes mesmos benefícios são negados aos trabalhadores.
Quem representa maior perigo para a sociedade
brasileira: os trabalhadores que lutam por direitos e reforma agrária, ou quem
se utiliza do poder econômico e político para concentrar mais riqueza,
escravizar o homem e a terra, ameaçar e assassinar lideranças!
Exigimos o julgamento imediato de Regivaldo e
Vitalmiro, acusados de serem os mandantes do assassinato de irmã Dórothy! A impunidade
não pode prevalecer!
Goiânia, 30 de junho de 2006
— A coordenação nacional
PONTO DE
INTERROGAÇÃO
Onde se cobram
providências das autoridades sobre dos três poderes do Maranhão, em casos
concretos relativos a corrupção administrativa e violação de direitos humanos e
sociais. Assegura-se espaço ao esclarecimento dos interessados. O leitor pode
colaborar sugerindo outras cobranças.
Que dia a Justiça
vai obrigar os envolvidos no escândalo do Fundo de Pensão da Assembléia a
devolverem o mal-havido?
Que falta para a
identificação e captura dos mandantes do assassinato do prefeito de Buriti
Bravo (MA), João Leocádio, abatido por mercenários em 2004?
Onde foram parar
os R$ 44 milhões subtraídos à Sudam na fraude da Usimar?
Quando o TRE-MA
julgará os processos em que Zé Reinaldo & Jura Filho, Roseana Sarney &
Edison Lobão são acusados de abuso de poder econômico nas eleições de 2002?
Quando haverá
punição para os PMs do Pelotão de Choque que torturaram detentos de Pedrinhas
em pelo menos duas oportunidades, fato provado e documentado para além de
qualquer dúvida?
Até quando ficarão
impunes os implicados na chacina da fazenda Comboio, em Bacabal?
Quando a Justiça
Federal vai punir o desvio de R$ 1,5 milhão em verba do Meio Ambiente no
município de Marajá do Sena (MA), no ano eleitoral de 2000? Quais as conclusões
da sindicância ordenada no Ibama-MA pelo então ministro Sarney Filho?
Quando a Justiça
vai julgar os crimes de tortura e morte relacionados ao ex-delegado Jean
Charles?
Repousa em que
gaveta o escândalo da Coliseu (gestão Jackson Lago?)
Por que a Justiça
permite a impunidade do assassinato do líder comunitário Miguelzinho Pereira
da Silva, abatido em 1997 em Barra do Corda (MA)?
Quando será
finamente construída a estrada Arame–Paulo Ramos, pretexto para pagamentos de
R$ 33 milhões solicitados pelo ex-secretário e atual governador José Reinaldo e
autorizado pela ex-governadora Roseana Sarney.
Quando serão
julgados os processos por estelionato e improbidade (e possível peculato) em
que são réus os ex-secretários municipais Mauro Bezerra e Helena Aranha?
Quando o Estado do
Maranhão vai tentar recuperar as verbas desviadas nas ratoeiras da Kao-I e da
Copama?
CARTA
DO EDITOR
Suspendo a edição
de papel,
mas isso não há
de ser nada
A partir desta edição está suspensa, pelo menos temporariamente, a edição
de papel deste Colunão. O principal motivo é que me falta lastro
financeiro para organizar uma estrutura comercial e de distribuição com a
eficiência necessária. Falta-me também a disposição de pedir e, não raro, o
ânimo de aceitar o que às vezes nem me parece desonesto, apenas impróprio. Isso,
mais as minhas deficiências naturais e adquiridas, pesa mais que as
mesquinharias de que tenha sido alvo e que me parecem perfeitamente coerentes
com meu conhecimento da realidade local.
Basta mencionar que o Governo do Estado, com suas 60 ou 70 secretarias,
sabe-se lá quantas são, até agora só adquiriu duas assinaturas do Colunão,
embora compre um caminhão de assinaturas dos jornais que lhe fazem a corte. Pelo
menos num caso, a aquisição foi comprovadamente barrada pelo assessor de
Imprensa José Machado, que ali atua menos como funcionário do Estado e mais
como agente comercial do Jornal Pequeno. Sua “fidelidade” chega ao ponto de ter cessado de enviar os boletins
informativos da Assessoria para minha caixa postal eletrônica, apenas 24 horas
depois de cessado o meu contrato de encarte no Jornal Pequeno. Ele é
rápido. Assim como fez, rapidamente teria desfeito, e com mil escusas, se
acaso eu me permitisse reclamar ao governador, coisa que nunca fiz.
Mas essa é só uma história entre tantas, muitas das quais não me animo
a contar agora. Certamente o leitor está lembrado de que o distribuidor do Estado
do Maranhão e de Veja Agora foi proibido de distribuir também
o Colunão, embora eu me dispusesse a lhe pagar a mesma comissão que os
outros dois. Assim como recorda que os jornaleiros vinculados ao JP foram
informados de que este semanário era “inaceitável”.
Completo este registro
homenageando o deputado tucano-malufista Aderson Lago, cujos rapazes — com a
ajuda bastante simbólica de um auxiliar do deputado Mauro Bezerra, o dos
Contracheques — continuam distribuindo contra mim um panfleto ignominioso que
até semana passada eu supunha esgotado. Descobri que não. Pudera. Eles se gabam
de imprimir 60 mil exemplares do boletim elaborado e gratuitamente distribuído
por sua assessoria de imprensa, e essa montanha de papel não acaba assim de
uma hora para outra.
Ele
pode. Afinal de contas, ou das contas, trata-se do candidato a governador mais
abonado da presente temporada, pelo menos enquanto não nos informam o valor
dos bens de Roseana Sarney Murad. E não deixa de ser uma homenagem ao jornalista
esse empenho difamatório, no momento em que o deputado teria cinco milhões de
motivos para dedicar-se à campanha de “candidato auxiliar” em tempo integral,
ao menos para sair da irrelevância indicada na última pesquisa.
Paro
o nosso tigre de papel cabeça erguida. Que outro jornal maranhense poria na
primeira página que a mais famosa “estrada fantasma” do Maranhão é obra conjunta
do atual e da ex-governadora? Que outro seria capaz de denunciar não somente a
doação ilegal do Convento das Mercês, mas também o oportunismo de quem passou
mais de dez anos calado e conivente e agora quer-se fantasiar de herói de uma
causa que outrora nunca abraçou?
Neste
saite — e no blogue http://walter.rodrigues.zip.net —
continuamos praticando o
jornalismo independente e socialmente responsável que ninguém nos pode tirar.
Aos assinantes da edição de papel, solicito a paciência de alguns dias. Uma
carta circular deste editor lhes dirá como devem fazer para obter o ressarcimento
ou a compensação a que têm direito. Aproveito as últimas linhas para agradecer
especialmente à Sociedade Maranhense de Defesa dos Direitos Humanos e aos
sindicatos progressistas parceiros do Colunão — Sindsep (Servidores Públicos
Federais), Urbanitários, Bancários e Judiciários. Idem aos colaboradores
intelectuais, tantos e tão bons que não dá para nominar a todos, pois esquecer
um único nome seria grave injustiça. Fiquem certos os leitores e amigos que o Colunão continua, no saite, no blogue e noutras formas que logo adiante será possível
inventar. Gostaria, portanto, de compartilhar com vocês, não o lamento de uma
derrota que não vejo nem reconheço, mas a doce alegria de continuar lutando.
Stédile
na ESG, uma conversa necessária
Um fato de grande relevância para a saúde
das instituições ocorreu no último dia 18, quando o coordenador nacional do MST (Movimento dos
Sem-Terra), João Pedro Stédile, falou por mais de duas horas sobre Reforma
Agrária e Meio Ambiente, a 100 estagiários da Escola Superior de Guerra (ESG),
no Rio, um dos “laboratórios” do golpe militar de 1964.
Ao
cabo da palestra e dos debates, o comandante da ESG, general João Benedito de
Barros Moreira, criticou a “burrice” das elites econômicas do país — em geral
inimigas da distribuição de renda e portanto da ampliação do mercado interno —
e adiantou que concorda com Stédile em “praticamente tudo”, menos em seus “métodos
de ação”. Se é só isso, o próprio Stédile e o MST podem também concordar com o
general, visto que ninguém pode “gostar” de promover ocupações e gerar
conflitos em que tão frequentemente se expõe a represálias violentas. Mas a
historia do Brasil mostra que as grandes transformações sociais, especialmente
as que implicam tomar poder e dinheiro às classes dominantes, não dispensam a
atuação de amplos movimentos de desobediência civil.
Embora
a maioria das escolas não nos ensine assim, a verdade é que o ato corajoso da
princesa Isabel em favor dos escravos foi precedido de revoltas e fugas em massa
e da “insubordinação” de militares que se recusaram ao papel de “capitães do
mato” — que muitos deles exerceram. Tudo isso inviabilizou de tal modo a permanência
da escravatura, por mais “legal” que fosse, de tal modo que quando a princesa
assinou a Abolição, somente uns poucos ainda achavam possível prolongá-la por
muito tempo. A maioria, quando não a desejava, pelo menos a reconhecia como
inevitável.
O
que se discutia, e muito, era se os libertos deviam ser ajudados com a oferta
de lotes de terra e modestas subvenções estatais, ou se, pelo contrário, a
elite escravagista é que merecia indenização pela perda patrimonial.
Princesa libertária — Documentos recém-publicados (Nossa História, n.31, maio de 2006) mostram que Izabel pretendia atender ao partido dos
ex-escravos. Seus planos foram arquivados pelo golpe militar republicano de 15
de novembro de 1889.
A
importância de falar aos militares sobre a necessidade de aprofundar a reforma
agrária não está em que devam ser convocados para impô-las ao baronato civil
reacionário. Não é necessário, assim como não foram eles que libertaram os
escravos, e até se lhes pode debitar a vergonha de não terem distribuído as
terras e o mínimo de indenização que aos negros teria permitido recomeçar a
vida em melhores condições. Basta que não se permitam utilizar como capitães do
mato contra os movimentos sociais e que, como cidadãos, nos estritos limites
constitucionais, reclamem dos métodos, se assim desejam, mas reconheçam a urgência
e a justiça dos objetivos. Sobretudo quando o sangue que escorre, seja na
ponte do Tocantins, seja em Corumbiara, seja em Eldorado de Carajás, não é o
dos latifundiários amantes da ordem injusta, mas sim o dos que querem mudar
este mundo para melhor.
No
mesmo encontro com Stédile, o general Barros explanou acerca do agravamento do
conflito no Oriente Médio, demonstrando exata compreensão do que ali ocorre.
Ele disse que o massacre dos palestinos na Faixa de Gaza e os terríveis bombardeios
de Israel no Líbano - que não somente liquidam civis à vista como tratam de
matá-los a prazo, pela metódica destruição da infra-estruturado país - são
acontecimentos incompreensíveis sem referência ao imperialismo dos Estados.
Israel só faz o que faz, disse, porque tem a cobertura econômica, diplomática e
militar de Washington.
Eis
aí, certamente, mais um ponto em que o general e o líder do MST certamente
estão de acordo. E o que acontece no Oriente Médio pode amanhã ocorrer aqui,
tendo em vista a crescente infiltração militar dos EUA na Amazônia (Colômbia e Equador,
sobretudo), as descabidas ameaças à Venezuela e a presença de tropas imperialistas
no Paraguai, onde já começam a entrar em conflito com as organizações camponesas
locais. É um quadro da maior gravidade, que inquieta tanto aos civis quanto aos
militares não-submissos da América do Sul.
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